Amor, vínculos, desejo e luto

Quando a ferida vira morada

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:47

2 min de leitura
🧐📄 *Textãoo do dia* *Quando a ferida vira morada* Há dores que passam. Outras deixam marcas. E há aquelas que, sem percebermos, começamos a visitar todos os dias. É nesse território que Maria Rita Kehl situa o ressentimento. Não exatamente como uma doença ou uma estrutura clínica, mas como uma forma particular de permanecer ligado ao que nos feriu. Para ela, no ressentimento, “a versão imaginária da falta [...] é interpretada como prejuízo”. A diferença parece pequena, mas muda tudo. Sentir que algo nos falta é reconhecer uma condição própria da vida: nem tudo teremos, nem tudo acontecerá como desejamos, nem todo amor será correspondido. Sentir-se prejudicado é diferente. Pressupõe que aquilo que me falta deveria ter sido meu e que alguém me roubou essa possibilidade. Então aparece o outro. O outro que não me amou suficientemente. O pai que não reconheceu. A mãe que preferiu o irmão. O parceiro que foi embora. O chefe que não valorizou. A vida que não entregou aquilo que parecia ter prometido. Kehl formula isso de maneira contundente: ressentir-se é atribuir ao outro a responsabilidade pelo próprio sofrimento. Mas talvez o ponto mais delicado seja outro: o ressentido não simplesmente não consegue esquecer. Em alguma medida, ele *“quer não esquecer”*. A lembrança da ofensa precisa permanecer viva porque ela sustenta uma narrativa na qual existe uma vítima inocente e um culpado bem definido. E essa posição oferece um ganho. Enquanto toda responsabilidade estiver do lado de fora, não preciso perguntar pela minha participação naquilo que aconteceu. Não significa negar que fomos feridos — às vezes fomos profundamente injustiçados. A questão analítica é outra: *o que faço agora com aquilo que fizeram comigo?* Na clínica, Kehl percebe que a repetição da queixa pode funcionar justamente como resistência. O sujeito reconhece que sofre, mas mantém toda a responsabilidade localizada no outro, dificultando sua própria implicação no que continua acontecendo em sua vida. Talvez por isso sair do ressentimento não seja simplesmente perdoar. É recuperar alguma autoria. É conseguir dizer: fizeram isso comigo, doeu, deixou marcas, mas minha vida não precisa permanecer eternamente organizada ao redor daquele que me feriu. Porque existe um momento em que continuar cobrando do passado aquilo que ele jamais poderá devolver significa entregar novamente ao outro o poder sobre o nosso presente. E talvez uma análise comece justamente aí: quando deixamos de perguntar apenas *“quem me fez isso?”* e conseguimos suportar uma pergunta muito mais incômoda: *“O que eu posso fazer, hoje, com aquilo que fizeram de mim?”*

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Maria Rita Kehl