A face estética do self
🧐📄 *TEXTÃO DO DIA*
*A face estética do self*
Antes de podermos dizer quem somos, já fomos ritmo, calor, voz, olhar, gesto, cheiro, presença.
Essa talvez seja uma das contribuições mais bonitas de Gilberto Safra em A face estética do self: o self não nasce primeiro como pensamento para depois ganhar um corpo. Ele começa a se constituir justamente nas formas sensíveis pelas quais a existência acontece. O corpo materno, a sonoridade da voz, os ritmos do encontro, os gestos e as experiências de tempo e espaço participam da constituição daquilo que Safra chama de formas estéticas do self.
Aqui, estética não significa simplesmente beleza. Significa forma de presença.
Safra propõe que determinadas experiências sensoriais tornam-se símbolos do self: formas que não apenas representam alguma coisa, mas apresentam algo do próprio modo de existir daquela pessoa. Uma melodia, um movimento, uma imagem, uma maneira particular de ocupar o espaço ou de experimentar o tempo podem carregar uma dimensão profundamente singular do sujeito.
Por isso Safra fala também em estilo de ser.
Cada pessoa vai constituindo uma maneira própria de estar no mundo. O self não é apenas aquilo que alguém consegue narrar sobre si. Há aspectos da existência que aparecem antes da palavra e, muitas vezes, permanecem inscritos na corporeidade, nos ritmos, nas imagens, nos gestos e nas formas de relação. O próprio Safra diferencia modalidades do self, incluindo o objeto subjetivo, o objeto transicional, o estilo de ser e os símbolos que articulam esse estilo.
Isso transforma a escuta clínica.
Nem tudo o que um paciente comunica chega pela associação verbal. Às vezes ele conta sua história na maneira como entra na sala, no ritmo de sua fala, no silêncio que produz, no modo como ocupa o espaço ou na sensação que deixa no encontro.
Talvez analisar alguém seja também aprender a reconhecer essas formas.
Porque há sofrimentos que ainda não encontraram palavras.
Mas já encontraram corpo.
Já encontraram ritmo.
Já encontraram uma forma de existir.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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