Cultura, literatura e sociedade

Quanto mais civilizados, menos bárbaros?

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:35

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🧐📄 *Textão do Dia* *Quanto mais civilizados, menos bárbaros?* Há uma imagem do final do século XIX que ainda nos fascina: cidades iluminadas, ferrovias atravessando continentes, telégrafos encurtando distâncias, avanços na medicina, crescimento das ciências, expansão da educação. Parecia que a humanidade finalmente havia encontrado seu caminho: progresso, razão e civilização. Eric Hobsbawm, em A Era dos Impérios, desmonta delicadamente essa fotografia. Entre 1875 e 1914, o capitalismo alcançava uma expansão extraordinária e a sociedade burguesa parecia confirmar sua confiança no progresso. Mas justamente quando aquela civilização atingia seu esplendor, suas contradições começavam a aparecer. Hobsbawm resume o paradoxo de maneira impressionante: foi uma época de paz sem precedentes no Ocidente que acabou produzindo uma era de guerras também sem precedentes. É difícil ler isso sem pensar em Freud. Quando escreve O mal-estar na civilização, em 1930, Freud já conhecia aquilo que Hobsbawm observa posteriormente como historiador: civilização não é sinônimo de pacificação do humano. Para Freud, viver em sociedade exige renúncia. Não podemos simplesmente amar quem desejamos, destruir quem odiamos ou satisfazer imediatamente nossos impulsos. A cultura estabelece leis, limites e proibições porque alguma contenção pulsional é necessária para que possamos viver juntos. Mas existe um preço. A agressividade não desaparece porque construímos bibliotecas, universidades, ferrovias ou parlamentos. Ela precisa encontrar outros destinos. Pode voltar-se contra o próprio sujeito sob a forma de culpa, pode aparecer nas relações entre grupos ou pode ser autorizada coletivamente quando encontramos um inimigo contra quem nossa violência parece legítima. É justamente aí que Hobsbawm e Freud parecem conversar. Hobsbawm descreve uma Europa cada vez mais rica, sofisticada e confortável caminhando em direção à catástrofe. Mais perturbador ainda: parte daquela juventude e de seus intelectuais recebeu a guerra com entusiasmo. O historiador identifica, nos anos anteriores a 1914, uma crescente rejeição dos ideais de paz, razão e progresso em favor da violência, do instinto e da explosão. A civilização que acreditava ter domesticado a barbárie descobria que a carregava dentro de si. Talvez essa seja uma das pontes mais bonitas — e inquietantes — entre História e Psicanálise. Hobsbawm nos mostra as contradições da civilização acontecendo no mundo. Freud tenta compreender as contradições da civilização acontecendo dentro do sujeito. Um observa impérios, massas, nacionalismos e guerras. O outro observa desejo, agressividade, culpa e renúncia pulsional. Mas ambos parecem tocar no mesmo ponto: o progresso técnico não significa necessariamente progresso psíquico ou moral. Podemos construir sociedades cada vez mais sofisticadas sem nos tornarmos menos agressivos. Talvez o verdadeiro mal-estar comece justamente quando descobrimos que a barbárie não está fora da civilização. Ela é uma de suas possibilidades.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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