Narciso à procura de uma nascente
🧐📄 *Textão do Dia*
Narciso à procura de uma nascente
Quando pensamos em Narciso, quase sempre lembramos do jovem apaixonado pela própria imagem. Joyce McDougall propõe um deslocamento muito mais interessante: talvez Narciso não esteja simplesmente fascinado pelo reflexo. Talvez esteja procurando uma fonte.
Uma fonte de existência.
No capítulo Narciso à procura de uma nascente, McDougall nos conduz para além da caricatura do narcisista como alguém excessivamente apaixonado por si mesmo. O problema narcísico aparece justamente quando esse “si mesmo” não consegue permanecer suficientemente estável. O sujeito procura no outro aquilo que ainda não consegue sustentar dentro de si: continuidade, reconhecimento, segurança, sentimento de identidade.
Por isso algumas relações se tornam tão intensas. O outro deixa de ser apenas alguém que desejamos e passa a ocupar uma função muito mais radical: torna-se necessário para que possamos continuar nos sentindo vivos.
McDougall mostra isso através de pacientes cuja aparente autonomia esconde uma profunda fragilidade. Quando o objeto se distancia, não aparece somente saudade. Pode surgir vazio, angústia, sensação de abandono ou mesmo uma espécie de desmoronamento interno. Não é simplesmente: “preciso de você porque amo você”. Em determinados momentos é quase: “preciso de você para continuar sendo eu.”
É aqui que a metáfora da nascente ganha força.
Narciso não procura apenas alguém que lhe devolva uma imagem bonita. Procura aquilo que possa continuamente alimentá-lo psiquicamente. O drama começa quando toda a água precisa vir de fora.
Talvez muitas relações que chamamos apressadamente de dependentes sejam tentativas desesperadas de manter essa fonte funcionando. O parceiro, o filho, o trabalho, a admiração, o corpo ou mesmo o olhar do analista podem ser convocados para sustentar algo que internamente permanece ameaçado.
O trabalho analítico, então, não consiste simplesmente em arrancar o sujeito de suas dependências. Seria cruel retirar uma fonte antes que outra possibilidade de sustentação tenha sido construída.
A análise pode oferecer uma experiência diferente: pouco a pouco, aquilo que precisava ser encontrado incessantemente no outro começa também a poder ser reconhecido, simbolizado e sustentado dentro de si.
Talvez amadurecer não seja deixar de precisar dos outros.
Talvez seja poder beber do encontro sem acreditar que, quando o outro partir, a nascente também desaparecerá.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
Reprodução integral do texto original, incluindo marcas de formatação e eventuais avisos de edição do WhatsApp. Sem correção ou reescrita.
Falar comigo