Quando a obsessão ocupa o lugar do desejo
🧐📄 *Textão do Dia*
*Quando a obsessão ocupa o lugar do desejo*
Em *A dama de espadas*, Aleksandr Púchkin apresenta Hermann, um homem racional, econômico e aparentemente controlado. Tudo se modifica quando ele descobre que uma velha condessa conheceria o segredo de três cartas capazes de garantir a vitória no jogo.
A partir desse momento, Hermann deixa de desejar e passa a obedecer a uma ideia fixa: “três, sete e ás”. O segredo promete dinheiro, mas principalmente a possibilidade de eliminar o acaso. Hermann não suporta depender da sorte, do tempo ou do outro. Deseja controlar aquilo que, por definição, escapa ao controle.
Freud escreveu que “o Eu não é senhor em sua própria casa”. Hermann acredita comandar suas ações, mas é progressivamente comandado por sua obsessão. Aquilo que parecia uma decisão racional revela-se uma compulsão. Ele manipula Lisavieta, invade o quarto da condessa e provoca sua morte. No entanto, sua busca não termina quando encontra o suposto segredo. A compulsão não procura apenas satisfação; muitas vezes, procura também a repetição do sofrimento e a própria punição.
Com Melanie Klein, podemos pensar a condessa como um objeto desejado, atacado e posteriormente transformado em figura persecutória. Hermann destrói justamente aquela que imaginava possuir o conhecimento capaz de completá-lo. Depois da morte, ela retorna como culpa, medo e perseguição.
Fairbairn nos ajuda a perceber que Hermann permanece ligado a um objeto excitante: a condessa promete um segredo, mas o mantém inacessível. O sujeito fica aprisionado não apenas ao prêmio, mas à relação com aquilo que promete satisfação e continuamente a adia.
Na perspectiva de Lacan, as três cartas ocupam o lugar de um objeto que supostamente preencheria a falta. Entretanto, como afirma o psicanalista, “o desejo do homem é o desejo do Outro”. Hermann não deseja apenas vencer; deseja possuir aquilo que imagina existir no Outro.
No último jogo, o ás é substituído pela Dama de Espadas. A racionalidade desmorona e a sequência torna-se: “três, sete, dama!”.
Talvez a pergunta clínica deixada por Púchkin seja esta: quantas vezes acreditamos perseguir uma vitória, quando inconscientemente estamos organizando nossa própria derrota?
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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