Cultura, literatura e sociedade

O DIABO NÃO QUER SUA ALMA. QUER SEU DESEJO

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:55

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🧐📄 *Textão do dia* *O DIABO NÃO QUER SUA ALMA. QUER SEU DESEJO* Freud costumava dizer que os grandes poetas chegaram antes da psicanálise. Entre eles, poucos exerceram tanta influência quanto Goethe. Não por acaso, em 1930, Freud recebeu o Prêmio Goethe, reconhecendo a importância desse autor para sua formação intelectual. Em Fausto, Goethe apresenta um homem que domina a ciência, a filosofia e a religião, mas permanece vazio. Nada do que conquistou responde à inquietação que o habita. É justamente nessa fissura que surge Mefistófeles. A leitura psicanalítica nos mostra que o Diabo não representa apenas o mal. Ele simboliza aquela parte do sujeito que promete eliminar a falta, oferecendo satisfação imediata para um desejo que jamais encontra repouso. Freud mostrou que o sofrimento humano não nasce simplesmente da ausência de prazer, mas do conflito permanente entre nossas pulsões e os limites impostos pela realidade. Lacan radicalizou essa ideia ao afirmar que o desejo nunca busca um objeto definitivo; ele vive da própria falta. Sempre que acreditamos que "agora serei completo", nasce um novo vazio. Talvez por isso Fausto permaneça tão atual. Hoje, poucos venderiam a alma em troca de conhecimento. Mas muitos a entregam diariamente em troca de reconhecimento, produtividade, consumo, status ou aprovação nas redes sociais. Apenas mudamos o nome de Mefistófeles. Winnicott lembraria que amadurecer não significa eliminar o vazio, mas aprender a habitá-lo criativamente. Bion diria que o sofrimento precisa ser pensado, e não anestesiado. Ferenczi perguntaria qual dor tornou esse pacto necessário. A psicanálise não promete destruir o Diabo interior. Ela nos convida a reconhecer sua voz antes de assinarmos contratos que parecem oferecer liberdade, mas apenas aprofundam nossa dependência. Goethe escreveu uma frase que atravessa séculos: «"Duas almas, ai!, habitam em meu peito."» Talvez toda análise comece exatamente quando deixamos de lutar para expulsar uma delas e passamos, finalmente, a escutá-las.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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