O DIABO NÃO QUER SUA ALMA. QUER SEU DESEJO
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*O DIABO NÃO QUER SUA ALMA. QUER SEU DESEJO*
Freud costumava dizer que os grandes poetas chegaram antes da psicanálise. Entre eles, poucos exerceram tanta influência quanto Goethe. Não por acaso, em 1930, Freud recebeu o Prêmio Goethe, reconhecendo a importância desse autor para sua formação intelectual.
Em Fausto, Goethe apresenta um homem que domina a ciência, a filosofia e a religião, mas permanece vazio. Nada do que conquistou responde à inquietação que o habita. É justamente nessa fissura que surge Mefistófeles.
A leitura psicanalítica nos mostra que o Diabo não representa apenas o mal. Ele simboliza aquela parte do sujeito que promete eliminar a falta, oferecendo satisfação imediata para um desejo que jamais encontra repouso.
Freud mostrou que o sofrimento humano não nasce simplesmente da ausência de prazer, mas do conflito permanente entre nossas pulsões e os limites impostos pela realidade. Lacan radicalizou essa ideia ao afirmar que o desejo nunca busca um objeto definitivo; ele vive da própria falta. Sempre que acreditamos que "agora serei completo", nasce um novo vazio.
Talvez por isso Fausto permaneça tão atual.
Hoje, poucos venderiam a alma em troca de conhecimento. Mas muitos a entregam diariamente em troca de reconhecimento, produtividade, consumo, status ou aprovação nas redes sociais. Apenas mudamos o nome de Mefistófeles.
Winnicott lembraria que amadurecer não significa eliminar o vazio, mas aprender a habitá-lo criativamente. Bion diria que o sofrimento precisa ser pensado, e não anestesiado. Ferenczi perguntaria qual dor tornou esse pacto necessário.
A psicanálise não promete destruir o Diabo interior. Ela nos convida a reconhecer sua voz antes de assinarmos contratos que parecem oferecer liberdade, mas apenas aprofundam nossa dependência.
Goethe escreveu uma frase que atravessa séculos:
«"Duas almas, ai!, habitam em meu peito."»
Talvez toda análise comece exatamente quando deixamos de lutar para expulsar uma delas e passamos, finalmente, a escutá-las.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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