Subjetividade contemporânea

Há dores que nunca foram apenas nossas

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:54

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🧐📄 *Textão do Dia* *Há dores que nunca foram apenas nossas* Vivemos em uma cultura que nos incentiva a acreditar que todo sofrimento nasce exclusivamente dentro de nós. Quando algo nos angustia, procuramos imediatamente uma explicação em nossa história pessoal. René Kaës, um dos maiores psicanalistas da teoria dos vínculos, propõe uma mudança profunda nessa forma de pensar: o sujeito não existe isoladamente; ele é constituído nas relações que estabelece ao longo da vida. Isso significa que parte daquilo que sentimos não foi produzida apenas por nossa experiência individual. Herdamos modos de amar, de temer, de silenciar e até de sofrer. Existem famílias e grupos que transmitem conflitos, segredos, lutos e expectativas sem que ninguém precise dizê-los explicitamente. Esses conteúdos passam a circular nos vínculos e, muitas vezes, encontram em uma única pessoa sua forma de expressão. Kaës mostra que o grupo possui uma realidade psíquica própria. Não é apenas a soma de indivíduos, mas um espaço onde desejos, fantasias, traumas e identificações são compartilhados e transformados. É nesse contexto que surge uma de suas ideias mais originais: a figura do porta-palavra. Trata-se daquele sujeito que, muitas vezes sem perceber, expressa em sua fala algo que pertence ao grupo inteiro. Seu discurso revela conflitos que todos vivem, mas que ninguém conseguia nomear. Essa perspectiva também modifica nossa compreensão do sintoma. Nem sempre ele é apenas um problema individual. Em muitas ocasiões, o sintoma denuncia uma tensão presente nas relações familiares, conjugais ou institucionais. O sofrimento de uma pessoa pode carregar a história emocional de muitos outros. Por isso, para Kaës, a palavra ocupa um lugar central na clínica psicanalítica. Falar não significa apenas relatar fatos, mas criar possibilidades de simbolizar aquilo que permanecia sem representação. Quando uma experiência encontra palavras, ela deixa de ser apenas uma angústia muda e passa a integrar a história do sujeito de forma diferente. A palavra transforma o vínculo e, ao transformar o vínculo, transforma também quem fala e quem escuta. Em uma época marcada pelo individualismo, Kaës nos lembra que não existe sujeito sem vínculo. Antes de sermos indivíduos, fomos acolhidos, nomeados e inscritos na linguagem por outras pessoas. Talvez por isso algumas dores pareçam tão difíceis de compreender: elas não nasceram apenas em nós.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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