O que significa estar vivo?
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O que significa estar vivo?
Durante muito tempo, a psicanálise foi compreendida como uma prática voltada à interpretação. O analista escutava os sintomas, os sonhos, os atos falhos e buscava revelar aquilo que estava oculto por trás deles. A tarefa consistia em compreender significados.
Thomas Ogden, um dos mais importantes psicanalistas contemporâneos, não abandona essa herança. Mas propõe uma mudança sutil e profunda: antes de compreender o que uma experiência significa, talvez seja necessário que ela possa ser vivida.
Essa distinção parece pequena, mas transforma radicalmente nossa forma de pensar o sofrimento humano.
Nem todo sofrimento decorre de algo desconhecido. Muitas vezes, ele nasce de algo que jamais pôde ser experimentado emocionalmente. Existem dores que não encontraram palavras. Existem perdas que não puderam ser choradas. Existem traumas que não puderam ser sonhados.
Nesses casos, o sujeito não recorda porque esqueceu. Ele não recorda porque nunca conseguiu transformar a experiência em algo verdadeiramente seu.
Por isso, Ogden afirma que uma das tarefas da análise é ajudar o paciente a "sonhar sonhos não sonhados".
A expressão é belíssima porque nos obriga a abandonar a ideia de que sonhar acontece apenas durante o sono. Sonhar, em sentido psicanalítico, é transformar acontecimentos brutos em experiência humana. É dar forma psíquica ao que antes era apenas excesso, desamparo ou vazio.
Talvez seja por isso que algumas pessoas repitam sempre os mesmos relacionamentos, os mesmos conflitos ou as mesmas formas de sofrimento. Não porque desejem sofrer, mas porque continuam tentando elaborar algo que ainda não encontrou representação.
O que retorna não é necessariamente uma lembrança.
O que retorna é uma experiência que ainda busca existir.
Na clínica, isso nos ensina que nem sempre a interpretação é o primeiro passo. Antes dela, pode ser necessário oferecer um espaço onde algo possa finalmente ser vivido, sentido, pensado e sonhado.
Winnicott dizia que a psicoterapia acontece na sobreposição de duas áreas de brincar. Ogden amplia essa intuição ao mostrar que a análise é também o lugar onde duas pessoas sonham juntas aquilo que nenhuma delas conseguiria sonhar sozinha.
Talvez a questão mais importante da psicanálise não seja apenas "o que aconteceu com você?".
Talvez seja:
"Que partes da sua história ainda aguardam a oportunidade de se tornar experiência?"
Porque existem sofrimentos que não pedem explicação.
Pedem existência.
E talvez a cura comece exatamente quando aquilo que permaneceu silencioso por tantos anos encontra, finalmente, alguém capaz de sonhar junto.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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