O dia em que o universo perdeu suas paredes
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O dia em que o universo perdeu suas paredes
Há momentos na história em que uma descoberta científica faz mais do que corrigir uma teoria. Ela altera a forma como o ser humano se compreende dentro da realidade.
Durante séculos, o Ocidente habitou um cosmos fechado. A Terra ocupava uma posição privilegiada. O céu possuía suas esferas perfeitas. Cada coisa tinha seu lugar. O universo era finito, ordenado e hierárquico. Acima dele estava Deus; abaixo dele, os homens. Havia limites físicos para o mundo e limites simbólicos para o pensamento.
Foi essa visão que começou a ruir entre os séculos XVI e XVII.
Alexandre Koyré, em Do Mundo Fechado ao Universo Infinito, demonstra que a chamada Revolução Científica não consistiu apenas em substituir uma teoria astronômica por outra. O que ocorreu foi algo muito mais radical: a destruição de uma imagem de mundo que havia sustentado a civilização europeia por mais de mil anos.
Quando Copérnico desloca a Terra do centro, quando Bruno imagina uma infinidade de mundos, quando Galileu matematiza a natureza e quando Newton transforma o espaço em uma estrutura universal, não muda apenas a ciência. Muda a própria experiência humana do existir.
O homem medieval vivia em um cosmos carregado de sentido.
O homem moderno desperta em um universo silencioso.
A antiga distinção entre alto e baixo, centro e periferia, perfeito e imperfeito perde sua força. O espaço torna-se homogêneo. O universo já não possui fronteiras visíveis. O infinito deixa de ser um atributo exclusivo de Deus e passa a fazer parte da própria estrutura da realidade.
Talvez seja por isso que a modernidade tenha produzido, simultaneamente, tanto progresso quanto angústia.
Ao ganhar um universo infinito, perdemos um mundo familiar.
Ao conquistar uma natureza explicável por fórmulas matemáticas, vimos desaparecer muitas das antigas certezas que organizavam a existência.
A questão levantada por Koyré permanece atual.
Vivemos em uma época de avanços tecnológicos extraordinários, mas também de crescente sensação de desorientação. Produzimos mais conhecimento do que qualquer geração anterior, porém continuamos perguntando onde estamos, quem somos e qual o sentido de tudo isso.
A ciência ampliou os horizontes do universo.
Mas a pergunta sobre o lugar do sujeito nesse universo continua aberta.
Talvez a verdadeira lição de Koyré seja que toda transformação do conhecimento é também uma transformação da subjetividade. Quando muda a imagem do mundo, muda também a imagem que fazemos de nós mesmos.
E essa revolução, ao que parece, nunca termina.
— Michel Francisco
Psicanálise & Curadoria
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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