Cultura, literatura e sociedade

Copérnico

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:56

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🧐📄 Textão do Dia *Copérnico* Hoje, 19 de fevereiro, lembramos o nascimento de Nicolau Copérnico, em 1473 — o homem que teve a ousadia de afirmar que a Terra não era o centro do universo. Ao deslocar o planeta do centro do cosmos, Copérnico não realizou apenas uma revolução astronômica, mas provocou um abalo profundo no narcisismo humano e nas estruturas simbólicas de poder de sua época. A Terra deixou de ser o umbigo da criação; o homem deixou de ocupar, sem questionamento, o lugar privilegiado garantido por Deus e pela tradição. Séculos depois, Sigmund Freud reconheceria nesse gesto algo que ultrapassa a ciência: uma ferida narcísica. Em Introdução ao Narcisismo (1914), Freud mostra que o sujeito humano sustenta sua vida psíquica a partir de uma superestimação de si mesmo, herdada do narcisismo infantil, quando o Eu se vive como centro do mundo e detentor de uma onipotência imaginária . Copérnico, ao retirar a Terra do centro do universo, inaugura aquilo que Freud chamaria de primeira grande ferida narcísica da humanidade: não somos o centro de tudo. Essa ferida não é apenas cognitiva — ela é afetiva, simbólica e política. Assim como o Eu infantil resiste à perda de sua posição ideal, as sociedades resistem às ideias que desmentem sua centralidade. O heliocentrismo foi vivido como ameaça porque atacava diretamente o ideal do Eu coletivo, sustentado pela religião, pela metafísica e pela ordem social. Não por acaso, Copérnico não foi imediatamente celebrado, mas combatido, silenciado e temido. Freud nos ensina que o narcisismo não desaparece: ele se desloca. Quando a realidade fere o Eu, este reage erguendo ideais, dogmas, identidades rígidas ou fantasias de grandeza. A história mostra que toda ferida narcísica produz resistência, recalque e, muitas vezes, violência simbólica. A dificuldade de aceitar que não somos o centro do universo ecoa hoje em outras formas de negação: na recusa do inconsciente, na ilusão de controle total, na crença de autonomia absoluta do sujeito contemporâneo. Copérnico abriu caminho para uma verdade desconfortável que a psicanálise radicaliza: o Eu não governa a própria casa. Se a Terra gira em torno do Sol, o sujeito gira em torno de forças que não domina — o inconsciente, o desejo, a pulsão. A psicanálise, nesse sentido, é herdeira direta da revolução copernicana: ela continua o trabalho de desalojamento do narcisismo humano, agora no plano psíquico. Talvez seja por isso que a psicanálise ainda incomode tanto. Assim como Copérnico, ela insiste em dizer: você não é o centro, nem do universo, nem de si mesmo. E é justamente dessa descentralização que pode nascer algo novo — não a humilhação do sujeito, mas uma relação mais ética, menos onipotente e mais responsável com o desejo, com o outro e com a realidade. Aceitar a ferida narcísica não é perder valor — é abandonar a ilusão de centralidade para, enfim, poder pensar.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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