Quando as garantias desabam
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*Quando as garantias desabam*
Um ataque de pânico costuma ser descrito como algo que surgiu “do nada”. O coração dispara, o corpo treme, o ar parece desaparecer e uma certeza terrível se instala: vou morrer, enlouquecer ou perder completamente o controle.
Mas será que aquilo que não conseguimos compreender realmente surgiu sem uma história?
Em Pânico e desamparo, Mario Eduardo Costa Pereira propõe que o pânico não seja reduzido a uma reação automática do organismo. Isso não significa negar a dimensão biológica nem a importância dos medicamentos quando necessários. O problema começa quando a explicação médica encerra a pergunta e transforma o sujeito em mero espectador do próprio sofrimento.
A psicanálise procura escutar o que existe para além da crise.
Freud utiliza a palavra alemã Hilflosigkeit para falar do desamparo. Nascemos incapazes de sobreviver sozinhos e dependemos da presença de alguém que cuide, interprete nossas necessidades e dê algum sentido ao que sentimos. Embora cresçamos, essa vulnerabilidade nunca desaparece completamente.
Mario Eduardo Costa Pereira mostra que o pânico pode ocorrer quando as garantias simbólicas que organizavam a existência perdem sua sustentação. O sujeito não encontra palavras, referências ou representações capazes de conter aquilo que invade seu corpo. Por isso, o pânico é vivido como uma experiência de aniquilamento: não é apenas o medo de alguma coisa, mas a sensação de que tudo pode desmoronar.
Nesse momento, o corpo expressa aquilo que ainda não encontrou lugar na linguagem.
A crise não deve ser romantizada nem transformada em uma mensagem simples a ser decifrada. Entretanto, também não precisa ser tratada como um acontecimento completamente separado da história daquele que sofre. O sintoma pode carregar marcas de perdas, separações, rupturas e experiências que ultrapassaram a capacidade psíquica de elaboração.
A clínica começa quando alguém encontra uma presença capaz de acompanhá-lo justamente onde as palavras faltam. O tratamento não oferece garantias absolutas, mas pode ajudar o sujeito a construir formas menos aterradoras de conviver com a própria vulnerabilidade.
Talvez o pânico revele uma verdade difícil: nenhuma vida está completamente protegida do desamparo. Mas aquilo que inicialmente aparece como terror sem nome pode, aos poucos, tornar-se uma experiência possível de ser narrada, escutada e elaborada.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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