Clínica e técnica psicanalítica

A análise não fabrica pessoas ajustadas

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:03

2 min de leitura
🧐📄 *Textão do dia* *A análise não fabrica pessoas ajustadas* Há quem procure a psicanálise como quem leva um objeto quebrado para o conserto: deseja eliminar rapidamente o sintoma, recuperar o controle e retornar à vida exatamente como ela era antes. Há também famílias, parceiros e instituições que encaminham alguém esperando que o analista produza uma personalidade mais adequada às suas expectativas. Jean Laplanche nos lembra, porém, que a psicanálise não trabalha por encomenda. O analista não recebe um modelo pronto de pessoa e tenta moldar o paciente até que ele se encaixe nele. A análise exige que exista uma demanda singular: algo que o próprio sujeito reconheça como sofrimento, conflito ou enigma em sua vida. Isso não significa que o analista seja indiferente à dor. Ele deseja que o paciente encontre melhores condições para viver, mas precisa desconfiar das ideias prontas de cura, normalidade, felicidade e adaptação. O cuidado analítico não consiste em dizer ao outro quem ele deveria ser, mas em criar condições para que ele possa escutar aquilo que desconhece em si. Para Laplanche, o eu não é o senhor absoluto da vida psíquica. Desde a infância, somos atravessados por mensagens vindas dos adultos: gestos, palavras, silêncios, expectativas e afetos que carregam sentidos que nem mesmo quem os transmite compreende inteiramente. A criança tenta traduzir essas mensagens. Parte delas encontra alguma representação; outra parte permanece enigmática e passa a constituir o inconsciente. Por isso, analisar não é apenas explicar tudo, completar histórias ou entregar interpretações fechadas. O eu já trabalha o tempo inteiro tentando produzir sentido. A análise também precisa desfazer certezas, interromper narrativas rígidas e abrir espaço para novas traduções. O analista não é aquele que possui todas as respostas, mas aquele que protege o enigma contra soluções rápidas. Sua neutralidade não é frieza: é a capacidade de escutar um sonho, uma lembrança dolorosa ou um comentário aparentemente banal sem decidir antecipadamente o que é mais importante. Talvez o objetivo da análise não seja fazer com que o sujeito domine completamente o inconsciente. Talvez seja ajudá-lo a viver sem precisar negar que existe, dentro de si, algo que sempre permanecerá parcialmente desconhecido.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Jean Laplanche