Quando interpretar não é o primeiro passo
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*Quando interpretar não é o primeiro passo*
A psicanálise perde sua força quando tenta transformar a complexidade humana em uma explicação única. André Green lembra que o psiquismo é heterogêneo, conflitivo e dinâmico. Por isso, sua proposta não é abandonar Freud, mas manter vivo o pensamento freudiano, ampliando-o diante das formas contemporâneas de sofrimento.
Na clínica clássica das neuroses, o paciente consegue associar, recordar, fantasiar e transformar seus conflitos em palavras. Mas nem todo sofrimento chega ao consultório dessa maneira. Há pacientes que não conseguem representar aquilo que sentem. Em vez de recordar, repetem. Em vez de falar, atuam. Em vez de elaborar a angústia, esvaziam-se, atacam os vínculos ou interrompem o próprio pensamento.
Nesses casos, o trabalho analítico não começa necessariamente pela interpretação de um significado oculto. Antes de interpretar, talvez seja preciso criar as condições para que algo possa ser pensado.
Green mostra que o enquadre não é apenas o divã, o horário ou a frequência das sessões. Existe também um enquadre interno do analista: sua capacidade de sustentar a escuta, tolerar o que ainda não possui sentido, reconhecer o impacto emocional do encontro e não reagir impulsivamente às provocações transferenciais.
Quando o paciente ataca a interpretação, rejeita o vínculo ou parece incapaz de associar, o analista pode sentir que sua escuta fracassou. Contudo, talvez o paciente esteja comunicando justamente sua dificuldade de transformar a experiência em pensamento. O ato surge onde a representação ainda não pôde se constituir.
Por isso, o analista precisa preservar sua função interpretativa sem utilizá-la precipitadamente. Em determinados momentos, sustentar a relação é mais importante do que oferecer uma explicação. A interpretação precisa nascer de um processo compartilhado, no qual algo inicialmente vivido como vazio, descarga ou repetição possa adquirir forma, palavra e sentido.
A clínica contemporânea não abandona a interpretação. Ela reconhece que, antes de revelar o inconsciente, algumas análises precisam ajudar o sujeito a construir um espaço psíquico onde o inconsciente possa finalmente ser escutado.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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