Teoria e conceitos

Só conseguimos nos encontrar quando alguém nos ajuda a existir

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:24

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🧐📄 *Textão do dia* *Só conseguimos nos encontrar quando alguém nos ajuda a existir* Quando ouvimos a palavra narcisismo, costumamos pensar em vaidade, arrogância ou amor excessivo por si mesmo. René Roussillon, porém, amplia essa compreensão. Para ele, o narcisismo envolve toda a relação que o sujeito mantém consigo: amar-se, odiar-se, reconhecer-se, estranhar-se, cuidar-se ou abandonar-se. Como escreve o autor, “não há esfera do funcionamento íntimo ou social que não seja afetada pela problemática do narcisismo”. Aquilo que sentimos por nós mesmos também participa de nossas relações amorosas, familiares e sociais. Encontramos o outro levando conosco nossa história, nossas feridas e tudo aquilo que ainda não conseguimos reconhecer em nós. O Eu não nasce pronto. Ele se constitui por meio das respostas recebidas no encontro com aqueles que cuidam de nós. Não basta uma grande quantidade de amor; importa também a sua qualidade. Uma pessoa pode ter sido muito amada, mas apenas sob a condição de corresponder às expectativas dos pais. Nesse caso, ela foi amada como prolongamento do desejo do outro, e não reconhecida em sua diferença. Roussillon mostra que precisamos inicialmente ser sentidos, vistos e ouvidos para, aos poucos, desenvolvermos a capacidade de sentir, enxergar e escutar a nós mesmos. Em suas palavras: “Só nos vemos bem se fomos bem-vistos”. O olhar do outro funciona como um /espelho afetivo, devolvendo à criança algo de sua própria existência. Quando esse espelhamento falha, o sujeito pode passar a vida procurando no olhar alheio a confirmação de que existe. Algumas pessoas precisam mostrar tudo o que fazem; outras produzem conflitos, sintomas ou comportamentos provocativos para finalmente serem percebidas. Nem sempre querem apenas chamar atenção. Muitas vezes, estão tentando construir uma imagem de si que nunca lhes foi suficientemente devolvida. Na clínica, portanto, não escutamos somente conflitos entre desejo e proibição. Encontramos pessoas que ainda lutam para sentir que existem, que possuem uma história e que permanecem elas mesmas apesar das mudanças. Talvez uma das funções mais profundas da análise seja justamente esta: oferecer um encontro no qual o sujeito possa ser visto sem ser invadido, ouvido sem ser aprisionado e acompanhado até conseguir reconhecer-se como autor de sua própria história.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

René Roussillon