Subjetividade contemporânea

Quando romper é uma forma de permanecer vivo

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:07

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🧐📄 *Textão do dia* *Quando romper é uma forma de permanecer vivo* Nem toda destruição deseja a morte. Em certas circunstâncias, destruir uma ligação, uma ordem ou uma identidade imposta pode ser a última tentativa de continuar existindo. Em A pulsão anarquista, Nathalie Zaltzman não transforma a pulsão de morte em algo bom. Ela mostra que sua força dissociativa pode assumir destinos diferentes. Pode conduzir à destruição mortífera, mas também pode voltar-se contra aquilo que aprisiona o sujeito e abrir uma “saída vital” quando todas as outras parecem fechadas. A experiência-limite surge quando um ambiente, uma relação ou uma organização social reduz alguém à condição de refém. O sujeito não consegue modificar a situação, mas também não aceita sucumbir. Nesse ponto, a pulsão anarquista preserva algo fundamental: a possibilidade de escolha, mesmo quando toda escolha parece ter sido abolida. Zaltzman também introduz uma provocação sobre o amor. Eros liga, reúne e protege, mas toda ligação pode conter uma intenção de posse. Existem amores que, em nome do cuidado, não permitem que o outro viva à sua maneira. Nesses casos, separar-se, recusar ou romper pode funcionar como protesto vital. É nesse sentido que a autora aborda a anorexia neurótica: não como simples desejo de morrer, mas como uma greve contra um “alimento-amor” que invade e impõe ao sujeito uma única versão de si. Ainda assim, essa resistência é profundamente perigosa: para escapar da anulação psíquica, a pessoa pode colocar a própria vida em risco. Na clínica, isso exige cuidado. Nem toda ruptura é liberdade, assim como nem toda ligação é vida. Às vezes, analisar não significa ligar ainda mais, mas sustentar o trabalho pelo qual alguém consegue se desfazer das obrigações de amor que o destroem.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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