Clínica e técnica psicanalítica

Interpretar não é fechar o sentido

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 22:25

2 min de leitura
🧐📄 *Textão do dia* *Interpretar não é fechar o sentido* O que faz uma interpretação funcionar em análise? Na segunda parte de *O que faz o psicanalista*, Antonio Quinet desloca essa pergunta de um lugar bastante comum: a ideia de que interpretar seria explicar ao analisante aquilo que ele ainda não compreendeu sobre si mesmo. A interpretação analítica acontece em outro registro. Para Quinet, seguindo Lacan, ela faz parte da *tática* do analista, mas precisa estar sustentada pela estratégia do manejo da transferência. O analista tem liberdade para interpretar, mas essa liberdade não é arbitrária: depende do lugar que ocupa para aquele sujeito e daquilo que está acontecendo naquela análise. Por isso, interpretar pode significar pontuar uma palavra, repetir uma frase, produzir um corte, fazer uma citação, introduzir um enigma ou simplesmente destacar algo que passou quase despercebido na fala. Quinet enumera justamente essas possibilidades: “pontuar, cortar, aludir, citar, repetir, enigmatizar”. Há aqui uma mudança importante na escuta clínica. O analista passa a prestar atenção não somente ao que o sujeito quis dizer, mas também àquilo que sua própria linguagem produziu sem que ele percebesse. Um tropeço. Uma palavra estranha. Uma repetição. Uma sonoridade. Um duplo sentido. É nesse ponto que Quinet aproxima a psicanálise da poesia. A linguagem deixa de ser apenas veículo de informação e passa a carregar algo do gozo. A metáfora pode funcionar como um verdadeiro *“transporte de gozo”*, fazendo passar pela palavra algo do real que não pode ser completamente apreendido pelo sentido. Por isso a interpretação não deveria preencher todos os espaços. Há momentos em que interpretar significa justamente *abrir uma fresta no sentido*. A poesia sabe fazer isso muito bem. Ela aproxima palavras, produz ambiguidades, brinca com sons e permite que alguma coisa seja ouvida para além daquilo que pretendíamos dizer. Quinet encontra aí uma imagem potente para a clínica: o analista escuta a fala como quem escuta uma partitura, atento também à música que o próprio sujeito ainda não consegue ouvir. Talvez interpretar seja justamente isso: *fazer o sujeito escutar algo novo naquilo que ele mesmo acabou de dizer.*

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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