Freud era também um pensador da evolução?
🧐📄 *Textão do Dia*
*Freud era também um pensador da evolução?*
Quando pensamos em Freud, quase imediatamente pensamos em inconsciente, sexualidade, recalque, sonhos e pulsões. Mas existe um Freud menos lembrado: aquele que nunca deixou de dialogar com a biologia e com as teorias evolucionistas de seu tempo.
Darwin e Lamarck aparecem nesse percurso de maneiras diferentes.
Darwin havia retirado o ser humano de uma posição privilegiada na natureza. Não somos uma espécie separada do restante dos animais, mas parte de uma história evolutiva. Essa continuidade entre homem e animal foi importante para Freud e aparece, por exemplo, no pano de fundo de Totem e Tabu.
Lamarck oferecia outra possibilidade particularmente sedutora para a metapsicologia: imaginar que determinadas experiências adquiridas ao longo da história da espécie poderiam deixar marcas transmitidas às gerações seguintes.
É nesse ponto que a questão se torna fascinante.
Em Pulsões e seus destinos, Freud chega a sugerir que as pulsões seriam, ao menos parcialmente, “decantações” dos estímulos exteriores que atuaram sobre a substância viva durante a filogênese. O pulsional carregaria, portanto, algo da história da própria vida.
Mais tarde, em Moisés e o monoteísmo, Freud reconhece que a biologia de sua época já rejeitava a herança dos caracteres adquiridos. Ainda assim, confessa que não conseguia simplesmente abandonar a hipótese da transmissão de certas marcas ancestrais.
É aqui que a leitura de Richard Simanke acrescenta uma nuance importante. Na conferência sobre Darwinismo e Lamarckismo na construção da segunda teoria pulsional, ele propõe que a pulsão de morte não precisa ser vista como incompatível com o darwinismo. Curiosamente, seriam as próprias pulsões de vida que exigiriam de Freud recursos teóricos mais próximos do horizonte lamarckiano.
Talvez Freud nunca tenha abandonado verdadeiramente a biologia.
Seu inconsciente não possui apenas uma história pessoal.
Em certos momentos de sua obra, ele parece carregar também uma história da espécie.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
Reprodução integral do texto original, incluindo marcas de formatação e eventuais avisos de edição do WhatsApp. Sem correção ou reescrita.
Falar comigo