Do vestígio ao inconsciente: como Freud herda de Darwin uma hermenêutica do conflito
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*Do vestígio ao inconsciente: como Freud herda de Darwin uma hermenêutica do conflito*
A teoria freudiana se fundamenta no horizonte aberto por Darwin, não apenas pela ideia de evolução, mas sobretudo pelo método hermenêutico que ele inaugura. Como mostra o artigo de Ferretti, Darwin não se limita à seleção natural: ele propõe uma forma de investigação histórica que lê os fenômenos atuais como vestígios de um passado não observável. Freud adota essa mesma posição epistemológica ao recusar explicações transcendentes do psiquismo e ao inscrever a vida anímica no campo de uma investigação naturalista e materialista.
No desenvolvimento da psicanálise, essa herança darwiniana aparece na concepção do inconsciente como um campo estratificado, marcado por restos e anacronismos. Assim como Darwin interpreta órgãos rudimentares como sinais de uma história evolutiva, Freud interpreta sonhos, sintomas e atos falhos como formações que conservam traços de fases anteriores da vida psíquica. O inconsciente não é um texto dotado de sentido pleno, mas um material fossilizado, cuja análise permite reconstruir o processo histórico de constituição do sujeito.
Essa filiação se radicaliza com o conceito de pulsão e com a crítica freudiana à civilização. A pulsão, longe de garantir adaptação, introduz conflito permanente entre desejo e cultura, produzindo recalque e sofrimento. Em O mal-estar na civilização, Freud retoma o gesto darwiniano de ferir o narcisismo humano ao mostrar que não há harmonia nem progresso psíquico sem perda. Assim, como a natureza em Darwin, a vida psíquica em Freud só pode ser compreendida a partir de seus conflitos, restos e descontinuidades.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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