Uma psicanálise que ainda consegue mudar
*TEXTÃO DO DIA*
*Uma psicanálise que ainda consegue mudar*
*“Contemporâneo não é sinônimo de atual.”*
A formulação de Fernando Urribarri ajuda a entender por que André Green continua tão importante para pensar a clínica. Não se trata simplesmente de acompanhar o que acontece hoje, nem de acrescentar novos conceitos a uma tradição já estabelecida. O contemporâneo, nessa perspectiva, aparece quando a própria psicanálise aceita interrogar seus modelos diante daquilo que a clínica passa a apresentar.
Urribarri propõe ler Green justamente a partir dessa pergunta. Sua obra não se organiza facilmente como uma sequência cronológica; ela ganha sentido quando percebemos os problemas que retornam, se transformam e obrigam o pensamento a avançar. Green permanece freudiano, mas um “freudiano pluralista”, interessado em colocar Freud em diálogo com os autores pós-freudianos e, principalmente, com os desafios encontrados na experiência clínica.
Há uma frase de Urribarri que me parece especialmente importante: “se você está numa disciplina viva, você tem novas perguntas”. Talvez seja possível acrescentar que uma clínica continua viva justamente enquanto suas respostas não se tornam maiores do que aquilo que consegue escutar.
O modelo freudiano clássico mostrou enorme coerência para pensar as psiconeuroses de defesa, o conflito, a associação livre e a transferência. Mas outros pacientes começaram a colocar problemas diferentes. Os estados limites tornam-se, então, fundamentais para esse movimento de renovação. Não porque substituam as neuroses, mas porque obrigam a perguntar aquilo que os modelos anteriores já não conseguiam responder suficientemente.
E é nesse ponto que a presença do analista também precisa ser reconsiderada. A contratransferência deixa de poder ser pensada apenas como ruído produzido pelos conflitos do próprio analista. Trabalhar com outros funcionamentos psíquicos exige investigar o papel do objeto, do outro e da própria participação do analista no processo.
Talvez Green seja contemporâneo justamente porque não tentou proteger a psicanálise das perguntas que poderiam transformá-la.
Urribarri diz que espera dos analistas aquilo que esperamos dos pacientes: “desejo de mudança”.
Talvez esse seja também um princípio clínico: uma psicanálise que não consegue mudar diante daquilo que escuta corre o risco de deixar de escutar aquilo que mudou.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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