Quando não há palavra, o corpo fala
🧐📄*TEXTÃO DE HOJE*
*Quando não há palavra, o corpo fala*
Na clínica contemporânea encontramos cada vez mais sujeitos que não sofrem por conflitos simbólicos, mas por **excesso de excitação que não vira pensamento**. Em vez de sintomas neuróticos, aparecem pânico, toxicomania, transtornos alimentares, depressões e passagens ao ato. Nessas formas de sofrimento, a pulsão não se organiza em fantasia, mas se descarrega diretamente no corpo e na ação, revelando um empobrecimento da capacidade de simbolização e de representação .
Para esses sujeitos, a psicanálise já não pode operar apenas interpretando o recalcado. Sua função fundamental passa a ser **criar as condições mínimas para que algo possa ser simbolizado** — transformar trauma em representação e excitação em elaboração psíquica . Isso implica repensar o próprio espaço analítico: não basta o enquadre ou as regras do contrato; é preciso uma ação do analista que torne possível a instalação da transferência onde ela falhou.
Freud mostrou que só há pensamento quando a energia pulsional deixa de se descarregar imediatamente e passa a ser **ligada** no aparelho psíquico. Essa capacidade de ligação é o que constitui o ego e torna possível a memória, a fantasia e o desejo. Quando essa função falha, o sujeito não consegue reter a experiência: ele repete, age, se intoxica, entra em colapso. A pulsão corre direto para o ato porque não há um ego capaz de contê-la .
É nesse ponto que o lugar do analista se torna decisivo. Como indica André Green, o analista deve **inibir a meta da pulsão**, não para frustrar o paciente, mas para impedir que a excitação se descarregue, abrindo espaço para que ela possa se transformar em representação . Ao sustentar esse tempo de contenção, o analista ocupa o lugar de um outro que acredita que o sujeito pode se aguentar, se organizar e, finalmente, **trocar o ato pelo pensamento e o gozo cego pelo desejo**.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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