Clínica e técnica psicanalítica

O que somos e o que nunca seremos

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 08:36

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🧐📄 *TEXTÃO DE HOJE* *O que somos e o que nunca seremos* A clínica psicanalítica nos mostra diariamente que o sujeito não é um projeto que se completa. Não existe um “eu pronto”. O inconsciente insiste justamente porque somos feitos de falta. Nesse ponto, Simone de Beauvoir toca algo profundamente analítico ao dizer que a existência humana é ambígua: somos, ao mesmo tempo, sujeitos que desejam e objetos atravessados por uma história que não escolhemos. O sofrimento psíquico aparece quando tentamos abolir essa ambiguidade. Alguns se agarram a normas, ideais e identidades para não sentir a própria divisão. Outros vivem na excitação da ação e do desempenho, usando o outro como objeto. Em ambos os casos, o que se tenta evitar é a experiência fundamental da psicanálise: não somos inteiros. A história de Moisés ilustra isso com precisão. Ele conduz seu povo, mas morre antes de alcançar a Terra Prometida. Do ponto de vista do Ideal do Eu, isso é fracasso. Do ponto de vista do desejo, é um gesto ético: Moisés aceita que sua obra não se fecha nele. Ele não tenta possuir o futuro. Na clínica, isso é decisivo. O analista não existe para “consertar” o paciente, mas para abrir um espaço onde o sujeito possa assumir seu desejo sem esmagar o desejo do outro. Como diz Beauvoir, não há liberdade sem um futuro aberto. E, em psicanálise, isso significa aceitar que viver não é completar-se — é sustentar a falta sem desistir de desejar.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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