Infância, trauma e constituição do sujeito

A criança no adulto nunca saiu de cena

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 09:58

3 min de leitura
📄🧐 *Textão de Hoje* *A criança no adulto nunca saiu de cena* Na clínica, escutar um adulto não é apenas acompanhar o que ele diz sobre o trabalho, os relacionamentos ou as disputas familiares. É, sobretudo, tentar reconhecer quem fala junto com ele. Como lembra Marion Minerbo, no discurso mais banal do adulto costuma ecoar o sofrimento de uma criança que permanece viva, ativa e determinante — ainda que invisível. Essa é uma das tarefas mais delicadas da escuta analítica: perceber que, paralelamente à vida adulta que amadureceu, trabalha, ama e sofre, existe uma vida emocional paralela, regida por uma lógica infantil própria. Essa parte da personalidade continua sentindo, pensando e reagindo como a criança que o sujeito foi. É isso que a psicanálise chama, em grande medida, de inconsciente. O ponto decisivo não é apenas saber que a infância deixa marcas — isso todos sabemos —, mas como essas marcas permanecem inscritas. Algumas experiências infantis foram representadas, simbolizadas e depois recalcadas. Outras, mais precoces e intensas, nunca chegaram a ser representadas: ficaram registradas como afetos brutos, sensações corporais, estados emocionais sem palavras. Ambas coexistem no adulto e se infiltram no seu modo de falar, amar, desejar e evitar. Por isso, quando um sofrimento parece “desproporcional” — uma vergonha excessiva, um medo aparentemente banal, um bloqueio que não se explica —, a clínica nos convida a desconfiar: não é só o adulto que está em cena. Há ali uma criança tentando se defender, repetir, sobreviver ou dar sentido a experiências que não pôde elaborar no tempo certo. Como já apontava Sigmund Freud, o inconsciente não se apresenta de forma direta; ele penetra na consciência de modo disfarçado. Dito de outra forma: a linguagem, os temas e os afetos da criança se misturam à linguagem adulta. O adulto fala — mas quem pauta muitas vezes é a criança. Na clínica com adultos, corremos um risco constante: esquecer a criança no adulto. Diferentemente da análise infantil, onde o brincar dá acesso direto a esse universo, no adulto a criança aparece travestida de racionalizações, narrativas cotidianas, queixas práticas. É preciso um trabalho fino de escuta para reencontrá-la ali. Reconhecer essa criança não é infantilizar o paciente. Pelo contrário: é levar a sério a complexidade do psiquismo. É entender que certos impasses não se resolvem apenas com decisões conscientes ou explicações lógicas, porque pertencem a um tempo psíquico anterior, que segue operando silenciosamente. Talvez seja isso que torna a psicanálise tão singular: ela nos lembra, todos os dias, que ninguém é apenas adulto. Dentro de cada um, há uma criança que ainda pede tradução, escuta e lugar. E enquanto essa criança não for reconhecida, ela continuará falando — mesmo que o adulto não saiba de onde vem a sua voz.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Sigmund Freud