Transmitir Freud é transmitir uma ética de escuta
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*Transmitir Freud é transmitir uma ética de escuta*
Há livros que não apenas apresentam autores, mas ensinam um modo de se posicionar diante da psicanálise. Introdução às Obras de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott, Dolto e Lacan, organizado por J.-D. Nasio, é um desses livros. Ele não trata a psicanálise como um museu de conceitos, mas como um campo vivo, atravessado por desejo, conflitos e escolhas éticas.
Nasio deixa claro, logo na abertura da obra, que transmitir psicanálise não é repetir fórmulas, mas fazer reviver a alma de cada autor: seus impasses, suas perguntas, seus riscos. Freud, por exemplo, não é apresentado apenas como o fundador de uma teoria, mas como alguém movido por uma força inquieta, uma vontade radical de compreender o sofrimento do outro, passando antes por si mesmo. A genialidade freudiana, como sublinha Nasio, não está em dominar conceitos, mas em emprestar o próprio eu à escuta, fazendo dele um instrumento sensível à causa do sofrimento alheio .
O texto nos lembra que a psicanálise não progride como as ciências exatas. Ela retorna sempre aos seus fundamentos — inconsciente, recalcamento, pulsão, desejo — não para repeti-los, mas para reencontrar neles algo novo. Freud voltando aos próprios conceitos aos 80 anos, Ferenczi reinventando a clínica a partir da empatia, Winnicott apostando na criatividade e no ambiente, Lacan recolocando o inconsciente no campo da linguagem: todos apontam para a mesma direção — a clínica exige reinvenção permanente.
Há, nesse livro, uma lição preciosa para quem estuda ou pratica psicanálise hoje: não basta conhecer a teoria, é preciso habitá-la. Cada autor apresentado por Nasio mostra que a psicanálise nasce do encontro entre teoria e experiência, entre saber e não-saber, entre método e implicação subjetiva. O analista não é aquele que aplica um manual, mas aquele que sustenta uma posição ética diante do inconsciente.
No fundo, o que essa obra transmite é algo simples e radical: a psicanálise só permanece viva quando aceita o risco de escutar. Escutar o outro, escutar a si mesmo, escutar o que retorna do inconsciente como enigma. Transmitir Freud — e todos os que vieram depois — é, antes de tudo, transmitir esse compromisso com o desejo, com a pergunta e com o não-todo do saber .
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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