A mente não nasce pronta: ela se transforma na relação com o mundo e com o sentido
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*A mente não nasce pronta: ela se transforma na relação com o mundo e com o sentido*
Uma das ideias mais fascinantes de Jean Piaget é que a inteligência não é um objeto que possuímos, mas um processo contínuo de construção. Pensar não significa apenas acumular informações; significa transformar-se a partir do encontro com a realidade. Cada nova experiência exige um delicado movimento entre conservar aquilo que já sabemos e modificar nossas estruturas internas para acolher aquilo que ainda não compreendemos. É o famoso equilíbrio entre assimilação e acomodação.
Embora a psicanálise percorra outro caminho teórico, há aqui um ponto de encontro extremamente fecundo. Também para Freud, o sujeito não está pronto. A vida psíquica é atravessada por conflitos, perdas, desejos, identificações e transformações constantes. O trabalho analítico não consiste em entregar respostas acabadas, mas em possibilitar que novas formas de significar a própria experiência possam surgir.
É justamente nesse ponto que Renato Mezan oferece uma contribuição preciosa. Ao aproximar a tradição interpretativa judaica da psicanálise, ele mostra que o essencial não está em descobrir um significado oculto como quem resolve um enigma. Interpretar, em análise, é produzir uma transformação do espaço psíquico. Uma interpretação só é verdadeiramente analítica quando modifica a relação do sujeito com seu próprio inconsciente.
Perceba a beleza desse diálogo entre Piaget e a psicanálise. Piaget nos ensina que a inteligência cresce quando nossas estruturas precisam se reorganizar diante do novo. Mezan nos lembra que a interpretação analítica também reorganiza, não apenas ideias, mas o próprio modo de existir do sujeito. Em ambos os casos, aprender significa suportar uma certa desorganização para alcançar um novo equilíbrio.
Talvez seja justamente por isso que tantas pessoas resistam ao processo analítico. Não porque desconheçam certas verdades sobre si, mas porque mudar exige abandonar formas antigas de organizar a experiência. Há algo em nós que prefere repetir o conhecido, mesmo quando ele produz sofrimento.
A clínica nos mostra diariamente que crescer não é acumular explicações sobre si mesmo. Crescer é permitir que aquilo que parecia fixo possa adquirir novos sentidos. É deixar que a história seja reinterpretada sem ser apagada. É construir uma inteligência afetiva capaz de integrar o passado sem permanecer aprisionado a ele.
No fim das contas, tanto Piaget quanto a psicanálise nos convidam à mesma atitude: compreender que o desenvolvimento humano não acontece pela simples passagem do tempo, mas pela capacidade de transformar experiências em novos modos de pensar, sentir e viver. Afinal, amadurecer talvez seja exatamente isso: continuar construindo a si mesmo sem nunca acreditar que a construção terminou.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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