Subjetividade contemporânea

Quando o sucesso não consegue esconder o vazio

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:59

2 min de leitura
🧐📄 *Textão do dia* *Quando o sucesso não consegue esconder o vazio* Há momentos em que a vida parece estar funcionando por fora, enquanto por dentro alguma coisa já deixou de viver. Pierre Rey tinha prestígio, dinheiro, circulação social e os sinais que costumamos reconhecer como sucesso. Ainda assim, sentia-se estrangeiro diante da própria existência. Em Uma temporada com Lacan, sua entrada em análise nasce justamente desse desencontro: ele possuía uma vida admirada pelos outros, mas não sabia mais o que nela realmente lhe pertencia. A análise não lhe oferece uma fórmula para ser feliz, nem uma explicação pronta sobre quem ele era. Lacan não aparece como alguém que preenche o vazio do analisando, mas como aquele que o conduz a escutar a forma singular como esse vazio organizava suas escolhas. Aos poucos, Rey percebe que não sofria apenas por aquilo que lhe faltava. Sofria também pelas maneiras que havia inventado para não entrar em contato com essa falta: o excesso, as relações brilhantes, as viagens, o dinheiro, as mentiras e a necessidade de permanecer em movimento. Talvez uma das descobertas mais difíceis da psicanálise seja esta: a falta não é um defeito que será eliminado quando encontrarmos a pessoa certa, o reconhecimento esperado ou o objeto perfeito. Ela participa da própria constituição do desejo. Quando tentamos apagá-la completamente, frequentemente apagamos também aquilo que nos mantém vivos. Depois de dez anos, Rey não termina sua travessia transformado em alguém sem angústias, perdas ou contradições. O que muda é sua posição diante delas. Ele passa a distinguir aquilo que escolhe daquilo que apenas suporta por medo, culpa ou submissão ao olhar do Outro. Conhecer-se não o fecha sobre si mesmo; curiosamente, torna-o mais aberto aos outros e menos aterrorizado por eles. Uma análise talvez não nos leve à vida idealizada. Pode, contudo, devolver-nos uma vida menos emprestada. Não elimina a morte, o luto ou o inevitável, mas permite que a palavra atravesse o que antes precisava ser vivido como silêncio, repetição ou fuga. Ao final, não se trata de preencher a falta, mas de aprender a desejar a partir dela.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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