Subjetividade contemporânea

Lacan semeia inquietação no sujeito moderno

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:15

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🧐📄 *Textão de hoje* Lacan semeia inquietação no sujeito moderno Há muitos motivos para se sentir provocado pela clínica e teoria de Jacques Lacan. Apesar de seu vocabulário denso e suas fórmulas enigmáticas, Lacan segue no centro dos debates sobre o sofrimento contemporâneo. No livro Por que Lacan?, o psicanalista Christian Dunker propõe uma tese direta, porém instigante: “Não é porque Lacan é difícil, mas porque nosso tempo também o é.” Assim como os mercados tentam lidar com variáveis imprevisíveis, o sujeito moderno tenta decifrar seu mal-estar em meio a excesso de informação, performance e normatização. Nesse cenário, Lacan retorna como operador de uma escuta diferente — uma escuta do desejo, da falta e do sintoma. --- Lacan, sintoma e linguagem Longe de tratar o sintoma como defeito a ser extirpado, Lacan o enxerga como algo a ser escutado. “O sintoma é uma mensagem codificada”, explica Dunker. O inconsciente, segundo Lacan, é estruturado como linguagem — o que exige do analista uma escuta que vai além da lógica consciente. O sujeito que sofre não precisa de diagnósticos rápidos, mas de alguém que suporte a sua fala. --- Desejo, falta e sujeito dividido Dunker lembra que Lacan reconstruiu o conceito de sujeito: não é o “eu” autoconsciente das terapias convencionais, mas um sujeito barrado, movido por uma falta. “O desejo não busca o objeto, mas é sustentado pela falta dele”, diz. É essa ausência que nos move. Sem ela, não haveria linguagem, nem amor, nem laço. --- Ainda provoca resistências Por que Lacan continua incomodando? Porque ele não oferece fórmulas prontas. Porque exige do sujeito trabalho, elaboração e transformação. “Lacan incomoda porque pede escuta real, e não adaptação social”, afirma o autor. Em tempos de soluções rápidas, sua proposta clínica caminha na contramão. --- > “Lacan foi, antes de tudo, um mestre do impossível — não no sentido de negar a possibilidade, mas de mostrar que é no impossível que mora o real.” --- A ética da escuta radical A clínica, na leitura de Dunker, é também um exercício ético: escutar o que não se quer ouvir. O analista se posiciona diante de um saber que não é todo, nem evidente. “O inconsciente é o discurso do Outro” — e isso impõe limites a qualquer pretensão de domínio total do saber. --- Por que ainda ler Lacan? Porque ele nos força a pensar. Porque ele desacomoda. Porque sua teoria resiste à medicalização da diferença. E porque, como conclui Dunker, “o lacanismo é uma aposta na potência do sujeito, mesmo quando este está em ruínas.” 📚 Fonte: Christian Dunker – Por que Lacan? (Zahar, 2019)

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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