Subjetividade contemporânea

A angústia na era da presença excessiva

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:31

2 min de leitura
🧐📄 *Textão do Dia* *A angústia na era da presença excessiva* Vivemos uma época curiosa: nunca tivemos tanto acesso, tanta informação, tanta conexão , ao mesmo tempo, nunca estivemos tão atravessados pela angústia. Talvez isso não seja coincidência. Como já indicava Lacan, a angústia não surge da falta, mas da falta da falta ou seja, do excesso de presença que invade o sujeito sem dar espaço para elaborar. As telas, sempre disponíveis, ocupam esse lugar de presença maciça. Elas não apenas informam elas exigem, convocam, invadem. Não há intervalo, não há silêncio, não há distância. Tudo chega pronto, imediato, contínuo. E quando tudo está presente o tempo todo, algo fundamental se perde: a possibilidade de desejar. Porque o desejo nasce justamente da falta, do intervalo, do não-todo. Nesse cenário, a vida se torna “plataformizada”: consumimos notícias como consumimos objetos, compartilhamos antes de compreender, reagimos antes de pensar. A lógica é simples — recebe e passa, recebe e passa. Sem elaboração, sem simbolização. O sujeito não se apropria do que vive; ele apenas circula por isso. E há ainda um agravante: o imperativo contemporâneo não é mais “você pode”, mas “você deve”. Deve gozar, deve consumir, deve opinar, deve se posicionar. O direito virou obrigação. E, nesse excesso de exigência, o sujeito não encontra limite — apenas pressão. Um gozo que não cessa… e que, justamente por isso, angustia. No fundo, a angústia contemporânea talvez não venha daquilo que falta, mas daquilo que não falta nunca. Da presença constante, da resposta imediata, da ausência de intervalo. Porque onde não há falta… não há espaço para o sujeito. E onde não há espaço para o sujeito… o que aparece é a angústia.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Jacques Lacan