Fairbairn e a prisão dos objetos internos
🧐📄 *Textão do Dia*
*Fairbairn e a prisão dos objetos internos*
Existe uma pergunta silenciosa que acompanha muitas pessoas durante toda a vida: por que continuamos presos justamente às relações que mais nos fizeram sofrer? À primeira vista, parece contraditório. Afinal, seria esperado que nos afastássemos daquilo que nos machuca. Entretanto, Fairbairn, em uma das contribuições mais profundas da psicanálise das relações de objeto, propõe exatamente o contrário: o ser humano não busca apenas prazer, mas, acima de tudo, busca o objeto, isto é, busca a relação. Thomas Ogden, ao revisitar sua obra, mostra como essa mudança de perspectiva transforma completamente nossa compreensão do sofrimento psíquico.
Para Fairbairn, a criança que encontra um ambiente emocionalmente insuficiente não deixa de amar seus cuidadores. Pelo contrário, continua investindo neles porque deles depende para sobreviver. O problema é que, diante de uma experiência repetida de rejeição, frieza ou indisponibilidade afetiva, ela passa a carregar essa relação para dentro de si. Assim nasce o mundo dos objetos internos: uma organização psíquica construída para preservar vínculos que nunca puderam ser plenamente vividos.
O aspecto mais doloroso dessa teoria é perceber que muitas vezes não sofremos apenas pela falta de amor recebida. Sofremos porque passamos a acreditar que existe algo de errado em nossa própria forma de amar. A criança conclui, inconscientemente, que seu amor foi excessivo, inadequado ou até destrutivo. Em vez de questionar a limitação do outro, culpa a si mesma. Essa culpa alimenta uma tentativa interminável de conquistar um amor que nunca chega, repetindo, na vida adulta, relações marcadas por dependência, humilhação, desprezo e esperança incessante.
Ogden amplia essa leitura ao sugerir que o verdadeiro cárcere psíquico não é apenas recordar o passado, mas insistir em transformá-lo. Muitas pessoas passam anos tentando, simbolicamente, fazer com que figuras emocionalmente indisponíveis finalmente as amem. Escolhem parceiros semelhantes, repetem vínculos frustrantes e permanecem presas à fantasia de que, desta vez, conseguirão reparar aquilo que ficou em aberto na infância.
A psicanálise oferece outra possibilidade. Ela não promete reescrever a história nem transformar os objetos do passado em figuras amorosas. Seu trabalho consiste em ajudar o sujeito a abandonar essa tarefa impossível. O crescimento emocional começa quando deixamos de gastar energia tentando mudar quem nunca pôde nos oferecer o que precisávamos e passamos a construir relações reais, sustentadas pela aceitação de quem somos.
Talvez essa seja a maior contribuição de Fairbairn: compreender que a liberdade psíquica não nasce quando encontramos pessoas perfeitas, mas quando deixamos de exigir que o presente conserte aquilo que pertence ao passado. É nesse momento que o amor deixa de ser uma busca desesperada por reparação e passa a tornar-se um encontro genuíno entre duas pessoas reais.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
Reprodução integral do texto original, incluindo marcas de formatação e eventuais avisos de edição do WhatsApp. Sem correção ou reescrita.
Falar comigo