Clínica e técnica psicanalítica

Quando a análise termina, o vínculo permanece

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 13:04

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🧐📄 *Textão do dia* *Quando a análise termina, o vínculo permanece* Um dos momentos mais delicados da clínica psicanalítica não é o início da análise, mas o seu fim. Para muitos pacientes, o término desperta antigas angústias de separação, reativando medos de abandono, perda e desamparo. Jean-Michel Quinodoz mostra que esse momento não representa apenas o encerramento de um tratamento, mas uma oportunidade singular para verificar se o vínculo construído ao longo da análise pôde ser internalizado. Freud já havia demonstrado que o desenvolvimento psíquico depende da capacidade de elaborar perdas. Quinodoz amplia essa perspectiva ao afirmar que o sucesso de uma análise não se mede pela ausência de sofrimento, mas pela possibilidade de o paciente suportar a separação sem sentir que sua própria existência está ameaçada. Nesse contexto, ganha destaque o conceito de **portance**: uma base interna de sustentação construída a partir das experiências emocionais vividas na relação analítica. Não se trata de independência absoluta, mas da capacidade de manter vivo, dentro de si, um objeto interno confiável mesmo quando o outro está ausente. Essa ideia dialoga profundamente com Winnicott e sua noção de capacidade de estar só. Estar só não significa isolamento, mas a possibilidade de permanecer consigo mesmo sem que a ausência do outro seja vivida como um vazio insuportável. A análise bem-sucedida favorece justamente essa conquista: transformar a dependência absoluta em autonomia emocional. Ao concluir sua obra, Quinodoz propõe uma compreensão esperançosa da clínica. A solidão não precisa ser apenas uma experiência de sofrimento. Quando elaborada, ela deixa de ser um território de abandono e passa a constituir um espaço de criatividade, reflexão e liberdade psíquica. Talvez esse seja um dos maiores objetivos da psicanálise: não impedir que o sujeito enfrente separações, mas ajudá-lo a descobrir que aquilo que recebeu em um vínculo significativo pode permanecer vivo dentro dele. Quando isso acontece, o fim da análise deixa de representar uma perda definitiva e passa a simbolizar a continuidade de um trabalho psíquico que seguirá acompanhando o sujeito por toda a vida.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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