Amor, vínculos, desejo e luto

O que fica quando alguém parte

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:57

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🧐📄 *Textão do dia* *O QUE FICA QUANDO ALGUÉM PARTE* Quando alguém que amamos morre, não desaparece apenas uma presença. Muda também alguma coisa em nós. Some um corpo, uma voz, um modo de ser olhado, mas se transforma igualmente o lugar que ocupávamos diante daquela pessoa. Talvez por isso o luto nunca seja apenas uma questão de ausência. Ele é também uma transformação. Luciano Bregalanti percorre essa região delicada ao mostrar que elaborar uma perda não significa simplesmente esquecer aquele que partiu ou substituí-lo por outra pessoa. O sujeito que volta a investir no mundo já não é exatamente aquele que existia antes da perda. O luto deixa marcas, reorganiza relações, altera nossa maneira de lembrar e, muitas vezes, até de desejar. O problema começa quando, para não perder o outro, tentamos conservá-lo imóvel dentro de nós. Existe uma diferença importante entre carregar a memória de alguém e transformar o próprio corpo em sua sepultura. Bregalanti encontra em Ferenczi uma ideia decisiva: introjetar não é simplesmente colocar o objeto perdido dentro de si. É apropriar-se dos sentidos que aquela relação produziu, permitindo que o Eu se amplie e continue vivendo. Talvez seja por isso que os sonhos tenham tamanha força no luto. Neles, os mortos retornam. Falam, sorriem, protegem, aparecem como se alguma conversa ainda pudesse continuar. Não porque a morte tenha sido desfeita, mas porque o psiquismo procura criar imagens para uma ausência difícil de representar. Durante a pandemia, Bregalanti encontra justamente isso nos sonhos recolhidos: diante de mortes sem despedida e rituais interrompidos, sonhar tornou-se também uma maneira de oferecer aos mortos um lugar na memória. Talvez elaborar um luto seja aprender uma estranha forma de presença: deixar partir sem precisar apagar. Porque quem amamos não precisa permanecer intacto dentro de nós. Às vezes, sua permanência mais profunda está justamente naquilo que sua ausência nos obrigou a transformar.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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