Clínica e técnica psicanalítica

O outro não é só bom nem só mau

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:19

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*🧐📄 Textão do dia* *O OUTRO NÃO É SÓ BOM NEM SÓ MAU* Há relações em que uma pequena frustração parece apagar tudo o que existia antes. Quem ontem era indispensável hoje se torna insuportável. O amor vira raiva, a admiração se transforma em desprezo, e a proximidade dá lugar ao desejo de desaparecer. Não se trata apenas de “mudar de ideia” sobre alguém. Em certos modos de funcionamento psíquico, sustentar duas verdades sobre a mesma pessoa pode ser doloroso demais. Kernberg chama atenção para a clivagem: uma defesa que mantém separados aspectos contraditórios da experiência. O outro aparece como inteiramente bom ou inteiramente mau; o próprio sujeito também pode oscilar entre sentir-se valioso e absolutamente desprezível. O problema não está em sentir amor e ódio. Está justamente na dificuldade de reconhecer que ambos podem existir em relação à mesma pessoa sem que um precise destruir o outro. É aí que a clínica se torna mais do que um lugar para contar histórias. O paciente leva para a relação com o analista essas formas de organizar o mundo. Idealiza, desvaloriza, aproxima-se, afasta-se. E o analista também sente: confusão, irritação, vontade de proteger, rejeitar ou responder. A contratransferência, quando pensada em vez de simplesmente atuada, pode tornar-se uma espécie de bússola para compreender aquilo que está acontecendo entre os dois. Nas fases iniciais do tratamento, o trabalho consiste em reconhecer essas representações fragmentadas do self e do outro e as defesas que as mantêm separadas. Aos poucos, a tarefa muda: já não basta identificar os extremos; é preciso ajudar o sujeito a tolerar a ambivalência, integrando amor e agressividade, qualidades e falhas, proximidade e diferença. Talvez amadurecer psiquicamente tenha algo a ver com isso: descobrir que alguém pode nos frustrar sem deixar de ser importante; que podemos sentir raiva sem precisar destruir o vínculo; que separar-se não significa necessariamente ser abandonado. No fim, integrar não é tornar tudo bom. É conseguir permanecer diante de uma realidade que deixou de ser perfeita sem precisar despedaçá-la.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Otto Kernberg