Clínica e técnica psicanalítica

Quando a realidade rachar

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 05:35

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🧐📄 *Textão do dia* *QUANDO A REALIDADE RACHAR* Quando alguém delira, nossa primeira tentação é perguntar onde terminou a realidade. Talvez essa seja a pergunta errada. Em Sobre a psicose, Joel Birman e os demais autores nos lembram que a psicose não é apenas um território de perda. Ela também é um território de construção. Freud já havia percebido algo revolucionário: o delírio não é simplesmente um amontoado de ideias absurdas. Pode ser uma tentativa desesperada de reorganizar um mundo que deixou de oferecer sustentação. Isso muda radicalmente a maneira de escutar. Quando uma casa desaba, ninguém começa perguntando pela decoração. Primeiro é preciso compreender quais paredes ainda permanecem de pé. Na clínica da psicose, talvez aconteça algo semelhante. Certas palavras, rituais, identificações, relações e até construções delirantes podem funcionar como pontos de amarração. Ginette Michaud chama atenção justamente para esses modos singulares de equilíbrio: estruturas aparentemente frágeis que, ainda assim, permitem ao sujeito continuar existindo sem se despedaçar. O problema começa quando o analista acredita que compreender significa corrigir. A psicanálise não deveria disputar com o paciente quem possui a versão correta da realidade. Freud já havia percebido que existe uma diferença decisiva entre interpretar e delirar: a possibilidade da dúvida. O analista precisa desconfiar inclusive de suas próprias interpretações. Quando ele transforma sua teoria em certeza absoluta, corre o risco de deixar de escutar o sujeito para escutar apenas a si mesmo. Talvez essa seja uma das grandes lições que a psicose oferece à própria psicanálise. Nem tudo aquilo que parece estranho precisa ser imediatamente eliminado. Algumas construções existem porque, naquele momento, são justamente o que impede uma queda maior. Escutar não é confirmar o delírio. Mas também não é arrancá-lo como quem retira uma erva daninha. Às vezes, antes de perguntar “como faço isso desaparecer?”, a pergunta clinicamente mais importante é outra: “O que isso está conseguindo sustentar?” Porque, em certos momentos da vida psíquica, aquilo que parece loucura para quem olha de fora pode ser justamente a tentativa do sujeito de continuar habitando o mundo.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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