O espelho não basta
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O ESPELHO NÃO BASTA
Acreditar que amar a si mesmo significa bastar-se pode esconder uma armadilha silenciosa. Narciso não morre porque se ama demais; morre porque, diante do reflexo, já não consegue encontrar um outro. O espelho devolve uma imagem, mas não oferece alteridade. É nesse ponto que a psicanálise nos convida a desconfiar de certa exaltação contemporânea do “eu”.
Freud mostrou que o narcisismo não é simplesmente uma doença ou um defeito moral. Ele participa da própria constituição do Eu. Antes de podermos amar alguém, precisamos ter sido investidos, olhados, nomeados. O psiquismo nasce desse paradoxo: para um dia nos tornarmos nós mesmos, primeiro precisamos existir no olhar de alguém. Como lembra o material sobre narcisismo, “o ego é uma soma de incontáveis Outros.”
Crescer, porém, exige também separar-se desse olhar. Significa descobrir que não somos tudo para o outro, que seu desejo ultrapassa nossa presença e que jamais controlamos inteiramente a imagem que produzimos no mundo. É o encontro com a falta. E a falta, mais do que uma ferida, põe o desejo em movimento: “O objeto perdido do desejo é o que movimenta meu desejo.”
Nosso tempo parece tornar esse encontro ainda mais difícil. Somos continuamente estimulados a produzir imagens de nós mesmos: versões editadas, existências organizadas para parecer inteiras. Dunker observa que aquilo que apresentamos no ambiente digital pode se aproximar muito mais da forma como gostaríamos de ser vistos do que daquilo que efetivamente somos.
Quanto maior a necessidade de parecer completo, menor o espaço concedido à falta, à dependência e ao desencontro.
Amar, portanto, não consiste em encontrar alguém que confirme permanentemente nossa imagem. Amar implica suportar que o outro permaneça outro.
Amadurecer pode começar quando deixamos de pedir ao amor um espelho e aceitamos que ele funcione como uma janela.
Porque o espelho confirma.
A janela surpreende.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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