Infância, trauma e constituição do sujeito

Quando falta até força para se defender

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 08:21

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🧐📄 *Textão do dia* *QUANDO FALTA ATÉ FORÇA PARA SE DEFENDER* Nem todo sofrimento psíquico faz barulho. Alguns pacientes chegam tomados por conflitos, angústias, sintomas, defesas. Outros chegam de um lugar muito mais silencioso: não lutam, não protestam, não parecem sequer encontrar forças para desejar alguma coisa. Luís Claudio Figueiredo chama nossa atenção para essa diferença ao apresentar a **matriz ferencziana de adoecimento psíquico**. Na tradição freudo-kleiniana, mesmo diante do trauma, o psiquismo ainda responde. Defende-se, ataca, recalca, fragmenta, resiste. Na matriz ferencziana, certos acontecimentos precoces podem produzir algo mais radical: uma **passivação**, uma espécie de suspensão da própria capacidade de reagir. É nesse território que Ferenczi encontra Balint e Winnicott. Balint chamou de **falha básica** aquilo que permanece como fratura nas regiões mais primitivas do psiquismo. Não se trata apenas de um conflito que pode ser interpretado, mas de uma experiência de vazio, perda, futilidade, de algo que não chegou a constituir-se suficientemente. Alguns desses pacientes não dizem exatamente “estou sofrendo”. Às vezes dizem, de maneiras muito diferentes: **“não encontro meu lugar na vida.”** Winnicott falará de uma espécie de **“morte dentro”**: áreas da experiência que ficaram amortecidas, congeladas, protegidas atrás de adaptações precoces. O falso self pode funcionar, trabalhar, produzir, sorrir e cumprir expectativas enquanto algo mais íntimo permanece sem vida, escondido e sem possibilidade de expressão. Talvez por isso nem todo paciente precise, primeiro, de uma interpretação brilhante. Alguns precisam encontrar um ambiente suficientemente seguro para voltar a existir. Antes de perguntar “o que este sintoma significa?”, talvez seja necessário perguntar: **o que aconteceu para que esta pessoa precisasse desaparecer de si mesma para continuar vivendo?** A clínica começa, então, não apenas onde conseguimos interpretar o sofrimento, mas também onde conseguimos permanecer ao lado daquilo que ainda não encontrou forças para nascer.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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