Infância, trauma e constituição do sujeito

Quando sobreviver exige tornar-se outro

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 21:50

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🧐📄 *Textão do Dia* *Quando sobreviver exige tornar-se outro* Há pessoas que chegam ao consultório funcionando bem demais. Falam com inteligência, cumprem tarefas, reconhecem o que os outros esperam e até parecem perfeitamente adaptadas. Ainda assim, quando tentam responder a uma pergunta simples — “o que você deseja?” — encontram apenas um silêncio estranho. É como se soubessem representar muitos papéis, menos habitar a própria vida. Ao revisitar Winnicott, Alfredo Naffah Neto lembra que o falso self não é, por si só, uma doença. Na saúde, ele participa da delicadeza necessária à convivência: nem tudo o que sentimos precisa ser exposto, e alguma adaptação nos permite circular pelo mundo sem entregar nossa intimidade inteira. O problema começa quando essa ponte se transforma em muralha. Isso pode acontecer quando, muito cedo, o ambiente não acompanha o ritmo do bebê. Às vezes, invade; outras vezes, falta justamente quando deveria sustentar. Para não viver repetidamente a ameaça de desintegração, a criança aprende a reagir antes mesmo de poder simplesmente existir. O falso self passa, então, a proteger o núcleo espontâneo, mas cobra um preço: aquilo que acontece pode deixar de ser vivido como experiência própria. Naffah distingue dois modos dessa organização. Na personalidade esquizoide, ainda existe um mundo subjetivo preservado, embora fechado e protegido; o contato com a realidade costuma ocorrer por meio de uma adaptação precária, muitas vezes intelectualizada. Na personalidade “como se”, a pessoa vive mais colada às expectativas externas, reunindo gestos, valores e identidades emprestadas. Sua vida pode parecer coerente por fora e, por dentro, não ter “cola” suficiente para formar uma história sentida como sua. Por isso, nesses casos, interpretar não é o primeiro gesto clínico. Antes, é preciso construir confiança, sustentar o enquadre, respeitar o ritmo e reconhecer os próprios erros. Desmontar rapidamente o falso self seria retirar uma defesa antes que exista onde repousar. Talvez o trabalho do analista seja manter a sala suficientemente estável até que aquele que aprendeu a representar possa, com medo e alguma raiva, arriscar-se a aparecer.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Donald Winnicott