Clínica e técnica psicanalítica

Os personagens que entram na sala de análise

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 10:26

2 min de leitura
🧐📄 *TEXTÃO DO DIA* *Os personagens que entram na sala de análise* Às vezes, o paciente passa boa parte da sessão falando de alguém que nem está ali. A mãe, o marido, um colega de trabalho, um filho, um vizinho — às vezes até um gato. A tentação do analista é imediatamente perguntar: *quem essa pessoa representa?* Antonino Ferro propõe algo um pouco diferente: talvez devêssemos perguntar também *o que esse personagem está fazendo nascer entre nós neste momento*. Para Ferro, a sessão não é apenas o lugar onde uma história antiga é descoberta. Analista e paciente produzem juntos um campo emocional no qual novas histórias podem surgir. O campo funciona como uma espécie de matriz de narrativas possíveis: aquilo que é contado depende também do encontro que está acontecendo ali. Isso muda bastante nossa maneira de ouvir. Quando alguém diz “meu pai”, “minha chefe”, “meu namorado” ou “meu gato”, essas figuras podem certamente remeter à história real ou aos objetos internos do paciente. Mas Ferro acrescenta outra possibilidade: os personagens podem funcionar como **figuras do próprio campo analítico**, dando forma narrativa a emoções que ainda não conseguiram ser pensadas diretamente. Por isso, cada sessão pode ser entendida como uma contínua renarração dos acontecimentos emocionais produzidos pelo encontro. É aqui que a contratransferência ganha outra dimensão. O que o analista sente — irritação, sono, ansiedade, entusiasmo, confusão, vontade de proteger ou até dificuldade para pensar — não precisa ser tratado apenas como algo pessoal a ser eliminado. Pode tornar-se material de investigação: talvez aquela experiência esteja dizendo alguma coisa sobre o campo que paciente e analista estão construindo juntos. O capítulo dedicado à contratransferência acompanha justamente diferentes formas pelas quais essas experiências podem adquirir valor narrativo dentro da sessão. Talvez uma das consequências mais bonitas dessa perspectiva seja também uma advertência clínica: **não interpretar depressa demais**. Porque uma interpretação pode estar correta e, ainda assim, chegar cedo demais. Ferro compara interpretações excessivamente saturadas a cientistas que abrem um ovo para descobrir o que existe dentro dele — e, fazendo isso, impedem o pintinho de nascer. Às vezes, nossa tarefa não é revelar imediatamente o significado da história. É ajudá-la a continuar sendo contada.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Antonino Ferro