Subjetividade contemporânea

O sujeito que ficou para trás

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 22:52

2 min de leitura
🧐📄 Textão do Dia O sujeito que ficou para trás Em que momento começamos a funcionar tão bem e a viver tão pouco? Há dias em que o café esfria sobre a mesa enquanto respondemos mensagens, organizamos compromissos e corremos para cumprir tarefas que parecem não terminar. Ao fim, fizemos quase tudo. Ainda assim, permanece a sensação incômoda de que não estivemos verdadeiramente em lugar algum. O sujeito contemporâneo não apenas vive em um mundo acelerado. A aceleração passou a morar dentro dele. Descansar produz culpa, o silêncio inquieta e uma tarde sem compromissos pode parecer mais ameaçadora do que uma agenda lotada. Não tememos somente perder tempo. Muitas vezes tememos aquilo que pode aparecer quando finalmente paramos. Porque, quando o ruído diminui, a história começa a falar. Voltam os lugares de onde viemos, as expectativas que recebemos antes mesmo de sabermos quem éramos, os desejos que talvez nunca tenham sido nossos. Voltam também os projetos adiados, os amores que não encontraram palavras e as versões de nós mesmos que ficaram pelo caminho. Somos feitos do que aconteceu, mas também daquilo que não pôde acontecer. A psicanálise nos ensina que o sujeito não nasce pronto nem se constrói sozinho. Ele carrega raízes, ausências, encontros e perdas. Por isso, nem toda resistência é preguiça, nem todo cansaço pede férias e nem toda procrastinação se resolve com disciplina. Às vezes, o sintoma é a parte de nós que ainda tenta dizer: “essa vida não está cabendo em mim”. Escutar isso não significa abandonar responsabilidades nem transformar o passado em morada. Significa reconhecer que uma vida cheia pode continuar vazia quando perdemos contato com aquilo que lhe dá sentido. E, quando o coração se rompe, descobrimos que nenhuma existência se sustenta sozinha. Uma música, um livro, uma conversa ou alguém que simplesmente permanece ao nosso lado pode oferecer linguagem ao que ainda era apenas dor. Não apaga a ferida, mas impede que ela se torne a história inteira. Encontrar o sujeito é recuperar o caminho de volta para si, sem esquecer que esse caminho quase sempre passa pelo outro. Quando você consegue parar, o que em sua história começa a pedir escuta?

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

Reprodução integral do texto original, incluindo marcas de formatação e eventuais avisos de edição do WhatsApp. Sem correção ou reescrita.