Quando o inconsciente ainda precisa nascer
🧐📄*TEXTÃO DE HOJE*
*Quando o inconsciente ainda precisa nascer*
A clínica psicanalítica contemporânea nos ensina que *nem todo sofrimento é sintoma* e que nem todo excesso pode ser imediatamente interpretado. O sintoma, desde Freud, supõe um *trabalho psíquico*: recalcamento, divisão do aparelho psíquico em sistemas e a possibilidade de transformar o conflito inconsciente em linguagem simbólica. Quando isso não ocorre, o que emerge não é palavra, mas ato; não é símbolo, mas descarga. É aí que o sofrimento ganha tonalidades traumáticas.
Por isso, a Psicanálise Contemporânea desloca seu eixo: não se trata apenas de interpretar um inconsciente já constituído, mas de *criar condições para que o inconsciente possa se construir*. Autores como *Silvia Bleichmar* ressaltam a importância do *Recalcamento Originário* como operador fundamental dessa construção. É ele que possibilita a formação de um Eu mais integrado, capaz de moderar excitações, flexibilizar defesas e sustentar conflitos sem colapsar.
Quando esse processo falha, o sujeito fica à mercê dos excessos pulsionais. Surgem então os adoecimentos por ativação ou por passivação, as agonias impensáveis, o vazio, a violência, a impulsividade. Não há sintoma a ser decifrado porque *não houve ainda simbolização suficiente*. A tarefa clínica deixa de ser a interpretação do sentido oculto e passa a ser o *manejo da experiência*, a sustentação do enquadre, a construção de bordas, a oferta de um espaço onde algo do vivido possa, pouco a pouco, tornar-se pensável.
Talvez esse seja um dos gestos mais éticos da psicanálise hoje: insistir que o sujeito não se reduz nem ao cérebro, nem à química, nem ao desempenho. Onde o inconsciente pode se construir, o excesso encontra limites, a angústia ganha forma e o ato pode ceder lugar à palavra. Não para eliminar o sofrimento, mas para que ele deixe de ser pura descarga e possa, enfim, entrar em trabalho psíquico.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
Reprodução integral do texto original, incluindo marcas de formatação e eventuais avisos de edição do WhatsApp. Sem correção ou reescrita.
Falar comigo