O Bom Samaritano: quando o cuidado vem do inconsciente
🧐📄Textão do Dia*
*O Bom Samaritano: quando o cuidado vem do inconsciente*
No capítulo “O bom samaritano”, de Os Evangelhos à luz da psicanálise, Françoise Dolto desloca completamente a leitura moral clássica dessa parábola. Para ela, não se trata de um mandamento de “ser bom”, nem de um ideal de caridade a ser seguido conscientemente. Trata-se, antes, de algo muito mais profundo: uma manifestação do desejo inconsciente.
Dolto insiste que o gesto do samaritano não é um ato voluntário, planejado ou moralmente calculado. Ele não ajuda porque “deve”, nem porque quer parecer bom. Ele ajuda porque algo nele responde ao outro. É um movimento que escapa ao controle do Eu — um encontro entre sujeitos mediado por uma dinâmica inconsciente de reconhecimento.
Isso muda tudo. Porque, na lógica psicanalítica, quando a caridade vira obrigação, ela se transforma em supereu: um imperativo que exige repetição, cobrança e até julgamento. E é justamente isso que Dolto critica — o risco de transformar o cuidado em performance, em algo que precisa ser exibido, repetido ou usado para condenar aqueles que “não ajudam”.
O bom samaritano, nessa leitura, não é um modelo moral. Ele é um acontecimento psíquico.
Ele não segue uma regra — ele responde a um encontro.
Há, portanto, uma diferença radical entre:
o ato que nasce do desejo
e o ato que nasce da obrigação
O primeiro é vivo, singular, verdadeiro.
O segundo tende à repetição vazia, à culpa e à hipocrisia.
Dolto mostra que o verdadeiro cuidado não se ensina como norma. Ele emerge quando o sujeito está em contato com seu próprio desejo — quando há espaço interno para reconhecer o outro não como objeto de dever, mas como alguém que convoca algo em nós.
No fundo, a parábola não ensina “quem devemos amar”.
Ela revela como o amor acontece.
E talvez essa seja a leitura mais radical:
o amor não é um ideal a ser alcançado,
mas um efeito do inconsciente quando ele não está sufocado.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
Reprodução integral do texto original, incluindo marcas de formatação e eventuais avisos de edição do WhatsApp. Sem correção ou reescrita.
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