Cultura, literatura e sociedade

O Bom Samaritano: quando o cuidado vem do inconsciente

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:09

2 min de leitura
🧐📄Textão do Dia* *O Bom Samaritano: quando o cuidado vem do inconsciente* No capítulo “O bom samaritano”, de Os Evangelhos à luz da psicanálise, Françoise Dolto desloca completamente a leitura moral clássica dessa parábola. Para ela, não se trata de um mandamento de “ser bom”, nem de um ideal de caridade a ser seguido conscientemente. Trata-se, antes, de algo muito mais profundo: uma manifestação do desejo inconsciente. Dolto insiste que o gesto do samaritano não é um ato voluntário, planejado ou moralmente calculado. Ele não ajuda porque “deve”, nem porque quer parecer bom. Ele ajuda porque algo nele responde ao outro. É um movimento que escapa ao controle do Eu — um encontro entre sujeitos mediado por uma dinâmica inconsciente de reconhecimento. Isso muda tudo. Porque, na lógica psicanalítica, quando a caridade vira obrigação, ela se transforma em supereu: um imperativo que exige repetição, cobrança e até julgamento. E é justamente isso que Dolto critica — o risco de transformar o cuidado em performance, em algo que precisa ser exibido, repetido ou usado para condenar aqueles que “não ajudam”. O bom samaritano, nessa leitura, não é um modelo moral. Ele é um acontecimento psíquico. Ele não segue uma regra — ele responde a um encontro. Há, portanto, uma diferença radical entre: o ato que nasce do desejo e o ato que nasce da obrigação O primeiro é vivo, singular, verdadeiro. O segundo tende à repetição vazia, à culpa e à hipocrisia. Dolto mostra que o verdadeiro cuidado não se ensina como norma. Ele emerge quando o sujeito está em contato com seu próprio desejo — quando há espaço interno para reconhecer o outro não como objeto de dever, mas como alguém que convoca algo em nós. No fundo, a parábola não ensina “quem devemos amar”. Ela revela como o amor acontece. E talvez essa seja a leitura mais radical: o amor não é um ideal a ser alcançado, mas um efeito do inconsciente quando ele não está sufocado.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Françoise Dolto