Clínica e técnica psicanalítica

Quando o sintoma começa a falar

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:40

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🧐📄 *TEXTÃO DO DIA* *Quando o sintoma começa a falar* Talvez uma das maiores invenções de Freud não tenha sido uma teoria, mas uma mudança de pergunta. Diante de uma paralisia sem lesão, de uma dor sem causa orgânica evidente ou de um gesto aparentemente incompreensível, a medicina do século XIX buscava descobrir o que estava errado no corpo. Freud começou a perguntar outra coisa: o que esse sintoma está dizendo? A histeria foi decisiva porque obrigou a clínica a reconhecer que o corpo não é apenas anatomia. Ele também carrega história, conflito e afeto. O material sintetiza essa virada em uma frase precisa: “O corpo tem uma dimensão discursiva.” Isso muda profundamente o lugar do sintoma. Ele deixa de ser somente um defeito que precisa ser eliminado e passa a ser compreendido como uma tentativa de expressão. Há sofrimentos que aparecem justamente quando alguma experiência não encontra palavras. O sintoma pode tornar-se, então, uma espécie de linguagem onde aquilo que não pôde ser dito encontra outro caminho. Talvez por isso a psicanálise tenha precisado abandonar progressivamente a hipnose. Fazer alguém recordar não era suficiente. Freud percebe que a transformação exige participação: associação livre, lapsos, silêncios, resistências, esquecimentos. O sujeito precisa estar implicado naquilo que começa a descobrir sobre si mesmo. Há também uma consequência ética importante. A psicanálise não nasce prometendo eliminar todo sofrimento nem fabricar pessoas perfeitamente adaptadas. Seu gesto é mais modesto — e talvez mais radical: devolver sentido àquilo que parecia absurdo. Freud transformou o sintoma em uma pergunta. E talvez uma análise comece justamente quando, diante daquilo que queremos desesperadamente fazer desaparecer, conseguimos perguntar: “O que, em mim, está tentando falar através disso?”

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Sigmund Freud