obsessivo não sofre apenas pelo excesso de pensamento. Sofre pelo excesso de vigilância.
🧐📄 *Textão do dia*
*obsessivo não sofre apenas pelo excesso de pensamento. Sofre pelo excesso de vigilância.*
Existe um cansaço psíquico que nasce quando alguém tenta controlar tudo o tempo inteiro. Não apenas as ações, mas os afetos, os desejos, as palavras, os impulsos, os riscos, os vínculos e até mesmo aquilo que deveria surgir de forma espontânea. A neurose obsessiva muitas vezes funciona assim: uma espécie de administração permanente da própria existência. Como se viver exigisse monitoramento contínuo.
O problema é que ninguém consegue sustentar esse estado sem pagar um preço emocional muito alto.
Charles Melman, ao comentar Lacan, mostra algo profundamente interessante sobre o obsessivo: ele frequentemente mantém uma relação de distância com o desejo. Aproxima-se, mas recua. Deseja, mas controla. Ama, mas vigia. E nesse movimento acaba transformando a própria vida numa espécie de adiamento permanente. Como se existisse sempre uma preparação infinita antes de viver de fato.
Talvez por isso tantos obsessivos experimentem uma estranha sensação de paralisia interna. A mente nunca descansa completamente porque ela acredita, silenciosamente, que relaxar seria perigoso. O pensamento vira defesa. A repetição vira proteção. O controle vira tentativa de evitar perda, angústia, castração, vulnerabilidade.
Mas existe algo curioso nisso tudo.
Quanto mais tentamos controlar integralmente a vida, mais a vida perde vitalidade. Porque viver exige certo grau de desorganização. Exige aceitar que nem tudo poderá ser antecipado, previsto ou garantido. Há encontros que dependem justamente daquilo que escapa ao cálculo.
O obsessivo muitas vezes transforma o desejo em tarefa.
Transforma o amor em raciocínio.
Transforma o afeto em verificação.
E aos poucos deixa de perceber que a existência não acontece apenas onde existe segurança. Ela também acontece no improviso, no risco simbólico, na imperfeição, no inesperado e até mesmo na falha.
Talvez uma das experiências mais difíceis para alguém excessivamente organizado psiquicamente seja descobrir que a vida não se deixa administrar completamente.
E talvez uma das mais libertadoras também.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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