Cultura, literatura e sociedade

Entre a razão e o abismo

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:14

2 min de leitura
🧐📄 *# Textão do dia* *Entre a razão e o abismo* Existe algo profundamente curioso no modo como tentamos compreender a vida. Em certos momentos, queremos transformar tudo em cálculo, estatística, química cerebral, explicação objetiva, como se o sofrimento humano pudesse caber perfeitamente dentro de um exame de imagem ou de um protocolo técnico. Em outros, fazemos o movimento contrário: abandonamos completamente a realidade concreta e mergulhamos numa espécie de subjetivismo absoluto, onde tudo passa a ser apenas interpretação, fantasia ou construção individual. Ferenczi percebeu muito cedo que tanto um extremo quanto o outro empobrecem o humano. Talvez uma das maiores contribuições de Ferenczi para a psicanálise tenha sido justamente sua recusa em escolher apenas um lado. Ele desconfiava tanto do cientificismo frio quanto das teorias excessivamente abstratas. Para ele, o sujeito não pode ser reduzido nem ao cérebro, nem a uma ideia metafísica desconectada do corpo e da experiência. O sofrimento humano acontece exatamente nesse território instável entre matéria e fantasia, entre corpo e linguagem, entre memória e presença. E talvez seja justamente por isso que a clínica jamais possa ser inteiramente previsível. Ferenczi compreendia algo que continua profundamente atual: nenhuma teoria consegue abraçar completamente a experiência humana. Toda teoria, quando endurece demais, começa lentamente a perder contato com a vida. Talvez por isso ele defendesse uma psicanálise capaz de dialogar com outros campos do conhecimento, sem perder sua singularidade. A isso ele deu o nome de “utraquismo”, uma palavra que significa “um e outro”. Não o “ou”. O “e”. Corpo e mente. Razão e imaginação. Ciência e sensibilidade. Objetividade e subjetividade. Há algo muito bonito nisso, porque no fundo Ferenczi nos lembra que pensar também é suportar a instabilidade. O conhecimento verdadeiro talvez não nasça apenas da lógica rigorosa, mas também da coragem de permanecer algum tempo no não saber. Afinal, toda descoberta importante começa quase como um devaneio, uma intuição ainda sem forma, uma sensação confusa que lentamente encontra linguagem. A própria clínica é assim. O analista escuta entre certezas e silêncios, entre o que o paciente diz e aquilo que ainda não consegue dizer. Num tempo em que tudo precisa ser rápido, mensurável, produtivo e imediatamente explicável, Ferenczi permanece quase como um convite à delicadeza. Um lembrete de que a alma humana não se deixa capturar inteiramente nem pela objetividade da ciência, nem pela ilusão narcísica da pura subjetividade. Talvez compreender alguém seja justamente suportar esse movimento contínuo entre um e outro.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Sándor Ferenczi