Cultura, literatura e sociedade

Ferenczi e política: a psicanálise como crítica à opressão

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 13:36

2 min de leitura
🧐📄 *Textão de hoje* *Ferenczi e política: a psicanálise como crítica à opressão* A obra de Sándor Ferenczi revela que a psicanálise pode ser muito mais do que uma prática clínica restrita ao consultório. Em Por uma ética do cuidado, Alexandre Patricio de Almeida destaca a face política do psicanalista húngaro, que denunciou com clareza as práticas de opressão, violência e silenciamento — tanto na família quanto na escola e nas instituições sociais. Para Ferenczi, o trauma não se limita ao campo individual. Ele nasce também de estruturas autoritárias que esmagam a subjetividade. Crianças e alunos, quando expostos a uma pedagogia vertical e repressora, vivenciam a mesma “anestesia psíquica” que o autor descreveu em pacientes vítimas de violência. Nesse sentido, educar sem cuidado é também produzir trauma social. --- O livro aproxima Ferenczi de pensadores como Paulo Freire, mostrando que sua crítica ao autoritarismo já apontava para a necessidade de uma educação libertadora. Se Freire defendeu o diálogo como essência da pedagogia, Ferenczi antecipou essa urgência ao afirmar que somente a empatia e a confiança poderiam transformar vínculos marcados pela dor. --- A ética do cuidado proposta por Ferenczi é, portanto, também uma ética política. Ao invés de neutralidade, ele reivindicava uma postura ativa contra a violência e em defesa da dignidade humana. A escola, vista por ele como extensão da clínica, poderia ser lugar de acolhimento e transformação — mas apenas se rompesse com as lógicas de poder que reduzem o aluno a objeto de disciplina. Ao final, a provocação fica evidente: será que nossas instituições educacionais, ainda hoje, não continuam reproduzindo práticas de opressão que Ferenczi já denunciava no início do século XX? Sua lição permanece atual: cuidar é também resistir, e resistir é sempre um gesto político.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Sándor Ferenczi