Amor, vínculos, desejo e luto

Alegria, tristeza e luto: o que perdemos e o que nos transforma

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:43

2 min de leitura
🧐📄 *Textão de hoje* *Alegria, tristeza e luto: o que perdemos e o que nos transforma* O mundo contemporâneo vive um paradoxo emocional. Ao mesmo tempo em que multiplicamos ferramentas para expressar sentimentos — curtidas, emojis, stories —, também desenvolvemos dispositivos para abreviá-los ou evitá-los. Deletar, bloquear, “dar unfollow” substitui despedidas, e cada vez mais saltamos etapas de elaboração de afetos, especialmente quando o assunto é o luto. No Café Filosófico, o tema ganhou contornos políticos e filosóficos. A proposta: criar um novo “letramento emocional” para reaprender a nomear, viver e cuidar dos nossos afetos. “Se não cuidamos deles, eles governam a gente”, alerta o palestrante. Cuidar de si, nesse contexto, é cuidar também da própria tristeza e das perdas — não como um peso a ser eliminado, mas como parte constitutiva de quem somos. --- Essa dificuldade em lidar com o luto talvez revele um traço da época: tratamos a perda como fraqueza e a tristeza como algo a ser rapidamente corrigido — de preferência, com a mesma velocidade com que apagamos um contato da rede social. --- A fala contrapôs Espinosa, que listou 48 afetos mas não incluiu o luto, e a psicanálise, para a qual o luto é mais que um evento pontual: é um dispositivo de subjetivação. “Nós somos também feitos das pessoas que nos deixaram, dos sonhos que abandonamos, das ilusões que se foram”, afirmou o convidado. Nesse sentido, as “paixões tristes” teriam a mesma dignidade que as “alegres” e mereceriam igual espaço na vida psíquica. O percurso do luto, segundo a exposição, parte da dor, atravessa a tristeza e a angústia, e chega à reconstrução — momento em que se acrescenta algo novo ao que foi perdido. É nesse ponto que, paradoxalmente, pode surgir a alegria: não como riso, mas como presença e vitalidade renovadas. Alegria que se mistura à saudade, formando um arco emocional que nos transforma. Ao final, a provocação ficou no ar: será que nosso vocabulário afetivo, no mundo da velocidade digital, é capaz de sustentar não apenas as alegrias, mas também as tristezas e lutos que nos fazem ser quem somos?

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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