Clínica e técnica psicanalítica

O Corpo Como Última Linguagem

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 11:03

2 min de leitura
🧐📄 *Textão de hoje* *O Corpo Como Última Linguagem* O corpo nunca foi apenas carne. Desde Sigmund Freud, a psicanálise percebeu que o sujeito escreve no corpo aquilo que muitas vezes não consegue dizer em palavras. O sintoma histérico já mostrava isso: o corpo falava. Tremia, paralisava, adoecia, sufocava, marcava-se. Como se existisse uma linguagem anterior à própria consciência, uma escrita silenciosa tentando encontrar alguma forma de reconhecimento. Talvez seja por isso que a contemporaneidade tenha transformado o corpo em palco privilegiado da subjetividade. Vivemos uma época em que o sofrimento já não encontra facilmente espaços de elaboração simbólica. Tudo precisa ser rápido, performático, produtivo, belo, saudável e desejável. O sujeito contemporâneo, esmagado entre o excesso de estímulos e a exigência constante de felicidade, passa a utilizar o corpo como superfície de inscrição de suas angústias. A tatuagem, os excessos estéticos, os sintomas psicossomáticos, os transtornos alimentares e até mesmo certas compulsões parecem responder à mesma tentativa desesperada: tornar visível aquilo que não encontra lugar na palavra. A tese de Stella Guimarães Ferraretto propõe algo profundamente interessante: tanto a tatuagem quanto o fenômeno psicossomático deixam marcas no corpo, mas não pertencem à mesma lógica psíquica. A tatuagem surge como tentativa de produzir sentido, identidade, borda, pertencimento. Já o fenômeno psicossomático aparece muitas vezes como aquilo que escapa à simbolização, como um excesso que invade silenciosamente o organismo. Ainda assim, ambos fazem laço social. Ambos falam de uma necessidade humana fundamental: ser reconhecido pelo outro. Talvez o drama contemporâneo esteja justamente aí. Nunca tivemos tantos discursos sobre o corpo e, paradoxalmente, talvez nunca tenhamos escutado tão pouco o sujeito. O corpo tornou-se mercadoria, vitrine, performance, algoritmo, estética. Mas continua sendo também lugar de memória, trauma, desejo e falta. Por trás da obsessão contemporânea pela imagem existe, muitas vezes, uma tentativa silenciosa de suturar algo que permanece irrepresentável. Jacques Lacan dizia que “é preciso ter um corpo para gozar”. Mas talvez seja preciso acrescentar: também é preciso ter um corpo para sofrer, para amar, para carregar as marcas da história e para tentar, ainda que imperfeitamente, transformar dor em linguagem. No fim, cada marca no corpo talvez seja uma pergunta dirigida ao outro: “você consegue ler algo de mim aqui?”

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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