Infância, trauma e constituição do sujeito

Teoria do apego em Bowlby

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:37

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🧐📄 *Textão do dia* *Teoria do apego em Bowlby* Há uma crença muito difundida de que crescemos e nos tornamos independentes quando deixamos de precisar dos outros. John Bowlby nos convida a pensar justamente o contrário. Talvez a verdadeira autonomia não nasça da ausência de vínculos, mas da experiência de ter encontrado, ao longo da vida, uma base segura da qual foi possível partir e para a qual sempre foi possível retornar. Desde os primeiros dias de existência, o ser humano busca mais do que alimento, abrigo ou proteção física. Busca presença. Busca alguém que possa acolher sua angústia, responder aos seus sinais e oferecer um sentimento de continuidade diante das incertezas do mundo. É dessa experiência que surgem as primeiras formas de confiança. Quando uma criança sabe que existe alguém disponível emocionalmente para ela, algo fundamental acontece. Ela se sente livre para explorar. A curiosidade cresce. O mundo deixa de ser apenas uma ameaça e passa a ser também uma possibilidade. A segurança não aprisiona; ela permite o movimento. Talvez por isso tantas dificuldades emocionais da vida adulta encontrem suas raízes não na falta de força, mas na falta de segurança. Muitas vezes aquilo que chamamos de dependência excessiva, medo do abandono, necessidade constante de validação ou dificuldade em confiar nos outros pode ser compreendido como a tentativa de reparar vínculos que nunca conseguiram se tornar verdadeiramente seguros. Bowlby nos lembra que o apego não é uma fase da infância que simplesmente desaparece. A necessidade de laços significativos nos acompanha durante toda a vida. Mudam as pessoas, mudam as formas de relação, mas permanece o desejo profundamente humano de encontrar alguém diante de quem possamos baixar as defesas e existir sem precisar provar constantemente nosso valor. Talvez uma das grandes tarefas da vida seja justamente essa: transformar relações marcadas pelo medo em relações sustentadas pela confiança. Não porque nos tornamos invulneráveis, mas porque descobrimos que não precisamos enfrentar tudo sozinhos. A maturidade emocional não é a capacidade de não precisar de ninguém. É a capacidade de construir vínculos suficientemente seguros para que possamos viver, amar, criar e seguir adiante sem que o medo do abandono determine cada um dos nossos passos.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

John Bowlby