Trauma: a dor que busca alívio e o furo no Outro
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*Trauma: a dor que busca alívio e o furo no Outro*
Gabor Maté dá um giro simples (e cruelmente verdadeiro) na pergunta: não é “por que a adicção?”, é “por que a dor?”. A droga, o excesso, a compulsão — seja substância, trabalho, consumo, sexo, internet — entra como promessa de alívio: um pouco de paz, de controle, de anestesia, “por algumas horas”, como ele diz. E aí aparece o ponto mais duro: “não tenho medo de morrer; tenho medo de viver”. Quando viver dói, o sujeito não procura prazer; procura trégua.
Colette Soler, por outro caminho, nos obriga a não psicologizar o trauma como “um fato que aconteceu”. Ela recoloca o trauma no lugar onde ele corta: no ponto em que o Outro falha em inscrever. “O Outro intervém com o que lhe falta”, diz o texto; Lacan nomeia isso como “troumatisme” — o trauma como efeito de um furo (trou): “O furo no Outro é o sítio do trauma, de todo trauma” e “cada traumatismo tem uma estrutura de foraclusão de um real”.
Ou seja: trauma não é só lembrança dolorosa; é encontro com um real que não entrou na gramática do sujeito, não ganhou amarração, não virou narrativa possível.
Quando Maté descreve histórias de abuso, abandono, negligência, ele está dizendo: houve um tempo em que não houve colo (ou houve um colo perigoso). E isso deixa marcas no corpo e na busca de anestesia. Soler vai além e aponta que os dois grandes nomes do traumático, na psicanálise, são justamente existência e sexo — “a própria vida e o sexo” insistindo na fala dos analisantes — porque aí o sentido costuma falhar e o gozo insiste.
Mas tem um detalhe decisivo para quem atende clínica hoje: o mundo contemporâneo aumenta a traumatizabilidade. Soler recolhe Lacan: o discurso do mercado não faz laço social como promessa de amparo; ao contrário, ele fragmenta e deixa o sujeito mais exposto. Daí a ideia de “diminuição do limiar traumático”: cada um se sabe mais vulnerável às contingências e mais próximo das “situações de desamparo” de Freud.
Não é à toa que “estresse” vira nome cotidiano: é uma maneira de dizer, sem dizer, que a angústia está em toda parte.
E Freud, nesse ponto, segue indispensável: trauma é quando há um excesso de excitação que o sujeito não consegue dominar; a angústia aparece como resposta a um perigo real, e a “angústia-sinal” funciona como tentativa de preparar o aparelho para não ser pego de surpresa de novo.
No fundo, a teoria freudiana recoloca o trauma na chave do desamparo vivido: a experiência (não imaginada) de não ter recursos diante do excesso.
Aqui entra um ponto ético que costura Maté com Soler: o contemporâneo quer transformar trauma num carimbo de identidade — “vítima” como destino — separando acidente e sujeito. Soler marca a diferença: para a psicanálise, há implicação subjetiva; “o sujeito é imanente a seu traumatismo”.
Isso não é culpar quem sofreu. É recusar a armadilha de reduzir a pessoa a um fato — e abrir o campo para a pergunta clínica: o que desse real fez marca? como isso se escreveu (ou não) no corpo e no discurso? que solução o sujeito inventou para seguir vivendo?
Se a adicção (no sentido amplo de Maté) é uma tentativa de curar a dor com um remédio que cobra juros, então o trabalho analítico não é “arrancar o sintoma à força”. É sustentar um espaço onde, pouco a pouco, o sujeito possa trocar anestesia por linguagem — e linguagem por invenção. Porque o trauma não se resolve com moral, nem com pressa, nem com diagnóstico-identidade. Ele se trata quando o que era furo puro encontra algum tipo de borda: uma frase possível, um enlace possível, um modo menos mortífero de buscar alívio.
Talvez seja isso, no fim, o gesto mais clínico do dia: não perguntar “o que há de errado com você?”, mas perguntar, com rigor e delicadeza: “onde doeu demais?” — e “o que você precisou fazer para sobreviver a isso?”
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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