A mãe viva que não está: o vazio que estrutura o sujeito
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*A mãe viva que não está: o vazio que estrutura o sujeito*
Há um tipo de perda que não se inscreve na morte biológica, mas num apagamento psíquico silencioso. A mãe respira, cuida, permanece presente no cotidiano — e, ainda assim, não está. É esse paradoxo que Catherine Parat descreve em A mãe morta (1980): não a ausência do corpo materno, mas a retirada abrupta do investimento libidinal, do olhar que sustenta, do desejo que anima. A criança não perde a mãe; perde a experiência de ser desejada.
Essa perda é traumática justamente porque não pode ser nomeada. Não há luto possível quando o objeto não cai, mas se apaga. A mãe continua ali como função, rotina e presença física, enquanto o vínculo vital se esvazia. O efeito psíquico é profundo: a criança cresce tentando reanimar o outro, tornar-se interessante, boa, silenciosa ou excessivamente adaptada, como se dissesse, sem palavras, “se eu for suficiente, talvez ela volte”. Nesse cenário, o sujeito passa a organizar sua vida em torno de um objeto deprimido e inacessível, aprendendo cedo a não demandar, a não incomodar, a não precisar.
A clínica mostra destinos frequentes dessa experiência: um narcisismo frágil, dificuldades em desejar sem medo, relações marcadas por vazio ou idealização excessiva, uma culpa difusa — como se a retirada do desejo materno tivesse sido causada por si — e depressões silenciosas na vida adulta, muitas vezes “sem motivo”. O sofrimento aparece menos como dor manifesta e mais como anestesia, uma economia psíquica que evita o risco de nova perda.
Na transferência, essa história retorna. O analista pode ser colocado no lugar daquele que pode desaparecer a qualquer momento, ou no lugar daquele que deve ser incessantemente animado e sustentado. Por isso, o manejo clínico exige uma presença particular: não abandonar, não se defender com excesso de técnica, suportar o vazio sem preenchê-lo apressadamente. A análise, nesses casos, começa antes da interpretação; começa pela restituição de uma presença viva, suficientemente constante para que o sujeito se autorize, pouco a pouco, a desejar sem temer destruir o outro.
A “mãe morta” não é apenas uma figura clínica; é também um traço do nosso tempo, atravessado por depressões, esgotamento psíquico e colapsos do desejo. Quando o desejo do Outro se apaga, o sujeito aprende a sobreviver ao vazio. A psicanálise não promete preenchê-lo; oferece algo mais raro: um espaço onde esse vazio possa ser simbolizado e onde a vida psíquica possa, gradualmente, voltar a circular.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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