Teoria e conceitos

O espelho não cria o sujeito, ele o convoca

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 09:43

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🧐📄*Textão do dia* *O espelho não cria o sujeito, ele o convoca* Há um equívoco recorrente quando se fala do espelho na constituição psíquica: imaginar que a criança se reconhece porque se vê. Françoise Dolto mostra que isso é falso — e clinicamente perigoso. O espelho não funda o sujeito. O que funda o sujeito é a mediação simbólica do Outro diante da imagem. Em A Criança do Espelho, Dolto insiste que a experiência especular é sempre uma prova. Uma prova afetiva, simbólica, estruturante ou devastadora, dependendo de como é atravessada pela palavra. Quando a criança se vê sem que alguém nomeie o que acontece — “isso é a sua imagem” — ela não se reconhece: ela se perde . É por isso que o erro aparentemente banal de dizer “esse é você” tem efeitos profundos. Não é “você”. É uma imagem. Confundir imagem e ser é produzir uma ferida narcísica precoce, um furo simbólico que deixa o sujeito condenado a vigiar sua identidade para não se fragmentar . Dolto vai além e desmonta outro mito: o de que a imagem do corpo depende da visão. As crianças cegas de nascença, diz ela, possuem uma imagem inconsciente do corpo rica, viva e organizada, construída pela linguagem, pela sensorialidade e pelo laço com o Outro. Elas “veem” com as mãos, com a escuta, com o corpo inteiro. O corpo, antes de ser visto, é falado . Isso tem consequências clínicas decisivas. Quando a imagem não é simbolizada, ela invade. Pode produzir fobia, dissociação, psicose. O caso da menina cercada por espelhos — fragmentada, sem presença humana mediadora — mostra como o espelho, sem palavra, pode literalmente adoecer uma criança . Na clínica, Dolto nos ensina algo que vale para além da infância: o analista não escuta apenas o discurso, escuta a imagem do corpo em sofrimento. O corpo do analisando e o corpo do analista entram em enxerto, numa relação onde presença, palavra e silêncio têm função estruturante . Talvez o ponto mais ético do livro seja este: o sujeito não se constitui sozinho diante do espelho. Ele precisa de alguém que sustente a cena, que traduza, que simbolize, que diga — eu estou aqui. No fundo, a clínica psicanalítica continua fazendo isso todos os dias: oferece um espelho que fala. E só um espelho que fala pode humanizar.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Françoise Dolto