O mal-estar no espetáculo: uma leitura psicanalítica de A civilização do espetáculo, de Mario Vargas Llosa
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*O mal-estar no espetáculo: uma leitura psicanalítica de A civilização do espetáculo, de Mario Vargas Llosa*
Em A civilização do espetáculo, Mario Vargas Llosa descreve uma cultura organizada em torno do entretenimento. Lida psicanaliticamente, essa crítica revela algo além do diagnóstico social: trata-se de uma estratégia coletiva de defesa contra a angústia.
Quando tudo precisa ser leve, rápido e divertido, não estamos diante de mais prazer, mas de uma recusa da castração. O espetáculo funciona como anestesia psíquica: evita o silêncio, a pausa e a pergunta sobre o desejo. O conflito é diluído, o trágico é transformado em conteúdo, o sofrimento só é tolerado quando pode ser consumido sem exigir elaboração.
A banalização da cultura e o desaparecimento do intelectual, apontados por Vargas Llosa, podem ser lidos como sintomas. O intelectual — assim como o analista — ocupa um lugar incômodo: não entretém, não promete felicidade, sustenta a pergunta. Em uma cultura regida pelo gozo imediato, esse lugar se torna insuportável.
A primazia da imagem sobre a palavra reforça esse movimento. A imagem impacta, mas não simboliza; a palavra exige tempo, ambiguidade e trabalho psíquico. Fugir da palavra é fugir da elaboração.
Na clínica, os efeitos aparecem com clareza: sujeitos saturados de estímulos, mas empobrecidos de desejo; muito gozo, pouco sentido. O espetáculo promete alívio, mas produz vazio.
Nesse cenário, a psicanálise não compete com o espetáculo — ela o interrompe.
Não anestesia, faz falar.
Não promete felicidade, sustenta o desejo.
Talvez o gesto mais subversivo hoje seja justamente este: não fugir do mal-estar, mas escutá-lo.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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